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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

domingo, 7 de junho de 2015

As Inesgotáveis Riquezas do Sagrado Coração de Jesus (Ensaio em Fase de Conclusão) 8




A Devoção ao Sagrado Coração de Jesus
segundo a Teologia Católica



Pe. Adolphe-Alfred Tanquerey sintetiza-nos
a devoção ao Sagrado Coração de Jesus1

1º. Observações preliminares. Para concluir o que levamos dito acerca da caridade, nada melhor podemos fazer que convidar os leitores a buscar no Sagrado Coração de Jesus a fonte e o modelo da caridade perfeita: nas Ladainhas aprovadas oficialmente pela Igreja invocamo-lo, efetivamente, como fornalha ardente de caridade, plenitude de bondade e amor: “fornax ardens caritatis... bonitate et amore plenum”.

Há, com efeito, na devoção ao Sagrado Coração de Jesus dois elementos essenciais: um elemento sensível, o Coração de carne, hipostaticamente unido à Pessoa do Verbo; um elemento espiritual, simbolizado pelo Coração material, e que outro não é senão o amor do Verbo Incarnado para com Deus e para com os homens. Estes dois elementos não fazem mais que um, como não fazem mais que um, o sinal e a coisa significada. Ora, o amor significado pelo Coração de Jesus é, sem dúvida, o amor humano, mas realmente também o amor divino, já que em Jesus as operações divinas e humanas andam unidas e indissolúveis. É o seu amor para com os homens: “Eis aqui o Coração que tanto amou os homens”; mas é também o seu amor para com Deus, porque, já o mostramos, a caridade para com os homens deriva da caridade para com Deus e tira dela o seu motivo verdadeiro.

Podemos, pois, considerar o Coração de Jesus como o modelo mais perfeito do amor para com Deus e do amor para com o próximo, e até como o modelo de todas as virtudes, visto a caridade as conter e aperfeiçoar todas. E como, durante a sua vida mortal, Jesus mereceu para nós a graça de imitarmos as suas virtudes, é também a causa meritória, a fonte das graças que nos permitem amar a Deus e a nossos irmãos e praticar todas as outras virtudes2.

2º. O Coração de Jesus fonte e modelo de amor para com Deus. O amor é o dom total de si mesmo; ora, sendo assim, quão perfeito não é o amor de Jesus para com seu Pai! Desde o primeiro instante da Incarnação, oferece-se e dá-se como Vítima, para reparar a glória de Deus, ultrajado por nossos pecados.

No seu Nascimento, como no dia da Apresentação no Templo, renova esta oblação. Durante a vida oculta, testemunha o seu amor para com Deus, obedecendo a Maria e a José, em quem vê os representantes da Autoridade Divina: e quem nos dirá os atos de puro amor que da pequenina Casa de Nazaré se elevavam incessantemente para a adorável Trindade? No decurso da sua vida pública, não busca mais que o beneplácito e a glória de seu Pai: “Quae placita sunt ei facio semper...3 Ego honorifico Patrem”4; na última Ceia, pode-se dar a Si mesmo testemunho de que glorificou a seu Pai durante a vida inteira: “Ego te clarificavi super terram”; e no dia seguinte, levava o dom de Si mesmo até à imolação do Calvário: “factus obediens usque ad mortem, mortem autem crucis”. Quem poderia jamais contar os atos internos de amor que brotavam incessantemente do seu Coração e fizeram da sua vida inteira um ato contínuo de caridade perfeita?

Mas quem poderia sobretudo exprimir a perfeição deste amor?

É, diz S. João Eudes5, um amor digno de tal Pai e de tal Filho; é um amor que iguala perfeitíssimamente as perfeições inefáveis do seu objeto tão amado; é um Filho infinitamente amante, que ama a um Pai infinitamente amável, é um Deus que ama a um Deus... Numa palavra, o divino Coração de Jesus, considerado segundo a sua divindade ou segundo a sua humanidade, é infinitamente mais a cada momento que todos os corações dos Anjos e dos Santos juntamente O podem amar por toda a eternidade.

Ora, este amor nós o podemos fazer nosso, unindo-nos ao Sagrado Coração de Jesus, e oferecê-lo ao Eterno Pai, dizendo com S. João Eudes: “Ó meu Salvador, eu me entrego a Vós, para me unir ao amor eterno, imenso e infinito que Vós tendes a Vosso Pai. Ó Pai adorável, eu Vos ofereço todo este amor eterno, imenso, infinito de Vosso Filho Jesus, como um amor que me pertence... Eu Vos amo como Vosso Filho Vos ama”.

3º. O Coração de Jesus fonte de amor para com os homens. Dissemos (nº 1247), quanto Jesus os amou na terra; resta-nos explicar como não cessa de os amar, agora que está no Céu.

a) Porque nos ama, é que nos santifica pelos Sacramentos: são, efetivamente, diz S. João Eudes6, “outras tantas fontes inexauríveis de graça e santidade, que tem a sua origem no oceano imenso do Sagrado Coração de nosso Salvador; e todas as graças, que deles procedem (Sacramentos), são outras tantas chamas desta divina fornalha”.

Mas é sobretudo na Eucaristia que Ele nos dá a maior prova de amor.

1) Há dezenove séculos (XXI séc.) que está conosco, noite e dia, como um pai que não quer deixar seus filhos, como um amigo que tem as suas delícias em estar com seus amigos, como um médico que se conserva constantemente à cabeceira dos seus doentes. 2) E está ali sempre ativo, adorando, louvando e glorificando a seu Pai por nós; dando-lhe perenemente graças por todos os bens que Ele não cessa de nos prodigalizar, amando-O por nós, oferecendo os seus méritos e satisfações para reparar os nossos pecados, e pedindo incessantemente novas graças para nós, “semper vivens ad interpellandum pro nobis”7. 3) Não cessa de renovar sobre o Altar o Sacrifício do Calvário, fá-lo um milhão de vezes por dia, em toda a parte onde há um Sacerdote para consagrar, e isto por amor para conosco, para aplicar a cada um de nós os frutos do seu Sacrifício (nº 271-273); e não contente de se imolar, dá-Se todo inteiramente a cada alma que comunga, para lhe comunicar as suas graças, as suas disposições e as suas virtudes (nº 277-281).

Ora, este divino Coração deseja vivamente comunicar-nos os seus sentimentos de caridade: “O Meu divino Coração, dizia Ele a S. Margarida Maria, está tão apaixonado de amor para com os homens, e para contigo em particular, que não podendo mais conter em Si mesmo as chamas de sua ardente caridade, é força que as difunda por teu meio, e que se lhes manifeste a eles, para os enriquecer de seus preciosos tesouros”8. E foi então que Jesus lhe pediu o coração para o unir ao Seu, e pôr nele uma centelha do Seu amor. O que fez de modo maravilhoso para a Santa, fá-lo para nós de modo ordinário na Sagrada Comunhão, e cada vez que unimos o nosso coração ao Seu; porque Ele veio à terra trazer o fogo sagrado da caridade e nada tanto deseja como ateá-lo em nossos corações: ignem veni mittere in terram, et quid volo nisi ut accendatur?9.

4º. O Coração de Jesus fonte e modelo de todas as virtudes. Muitas vezes na Sagrada Escritura o coração designa todos os sentimentos internos do homem, por oposição a seus atos externos: “O homem não vê senão o que se manifesta no exterior, Deus, porém, vê o coração: Homo videt ea quae parent, Deus autem intuetur cor”10. Por via de consequência, simboliza o Coração de Jesus não somente o amor, mas todos os sentimentos internos da sua Alma. Foi sem dúvida assim que os grandes místicos da Idade Média e, após eles, S. João Eudes encararam a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. O mesmo se diga de Santa Margarida Maria. É indubitável que a Santa insiste principalmente, e com razão, no amor de que está cheio este divino Coração; mas nos seus diversos escritos mostra-nos este Coração como o modelo de todas as virtudes; e o Pe. de la Colombière, seu confessor e intérprete, resume o seu pensamento num Ato de Consagração, que se encontra ao fim do seu livro Retraites spirituelles11.

Este oferecimento faz-se para honrar este divino Coraçao, sede de todas as virtudes, manancial de todas as bênçãos e refúgio de todas as almas santas. As principais virtudes que Nele se pretendem honrar são: em primeiro lugar, um amor ardentíssimo para com Deus seu Pai, juntamente, com um profundíssimo respeito e a maior humildade que jamais existiu; em segundo lugar, uma paciência infinita nos males, uma dor extrema dos pecados cujo peso carregara sobre Si mesmo, a confiança dum filho terníssimo aliada com a confusão de um grandíssimo pecador; em terceiro lugar, uma compaixão, sobremaneira sensível, das nossas misérias, e, apesar de todos estes movimentos, uma igualdade inalterável, causada por uma conformidade tão perfeita com a Vontade de Deus que não podia ser perturbadas por nenhum acontecimento”.

De mais a mais, como todas as virtudes derivam da caridade e nela encontram a sua última perfeição (nn. 318-319), sendo como é o Coração de Jesus fonte e modelo da divina caridade, o é também de todas as virtudes.

Destarte vem a coincidir a devoção ao Coração de Jesus com a devoção à Vida Interior de Jesus exposta por M. Olier e praticada em S. Sulpício. Esta vida interior, diz ele, consiste “nestas disposições e sentimentos internos para com todas as coisas: por exemplo, na sua religião para com Deus, no seu amor para com o próximo, no seu aniquilamento para consigo mesmo, no seu horror do pecado, e na sua condenação do mundo e das suas máximas”12.

Ora, estas disposições encontram-se no Sagrado Coração de Jesus, e é lá que se devem ir beber. E é por isso, que a uma pessoa piedosa, que gostava de se recolher no Coração de Jesus, escreve M. Olier: “Perdei-vos mil vezes ao dia no seu amável Coração, ao qual vos sentis tão poderosamente atraída... Não há recinto mais escolhido que o Coração do Filho de Deus; é a pedra preciosa do escrínio de Jesus; é o tesouro do próprio Deus em que recolhe todos os seus dons e comunica todas as graças... Foi neste Coração Sacratíssimo e neste adorável Interior que primeiro se operaram todos os Mistérios... Vede, pois, a que vos chama Cristo Senhor Nosso, abrindo-vos o seu Coração, e como deveis aproveitar-vos dessa graça que é uma das maiores que tendes alcançado em vossa vida. Não vos arranque jamais a criatura desse lugar de delícias, onde queira Deus estejais abismada para o tempo e para a eternidade com todas as santas esposas de Jesus”13. E noutra parte acrescenta: “Que coração não é o Coração de Jesus! Que oceano de amor se encontra nele contido, a transbordar sobre toda a terra! Ó manancial fecundo e inexaurível de todo o amor! Ó abismo profundo e inesgotável de toda a religião! Ó divino centro de todos os corações!... Ó Jesus, sofrei que eu Vos adore em Vosso Coração que eu vi ainda esta manhã. Quereria descrevê-lo, mas não me é possível, tão arrebatador é Ele! Eu O vi como um Céu, todo cheio de luz, de amor, de ação de graças e de louvor. Ele exaltava a Deus, exprimia as suas grandezas e magnificências”14. Para M. Olier, o Interior de Jesus e o Seu Sacratíssimo Coração são uma e a mesma coisa: é o centro de todas as suas disposições e virtudes, é o santuário do amor e da religião, em que Deus é glorificado e as almas fervorosas se deliciam em recolher-se.

Conclusão

Para que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus produza estes felizes resultados, deve consistir em dois atos essenciais: amor e reparação.

1º. O amor é o primeiro e principal destes deveres, segundo Santa Margarida Maria e S. João Eudes.

Dando conta ao P. Croiset da segunda grande aparição, escreve Santa Margarida Maria: “Ele me deu a conhecer que o grande desejo que tinha de ser amado pelos homens e de os retirar do caminho da perdição O havia levado a formar este desígnio de manifestar o seu Coração aos homens, com todos os tesouros de amor, misericórdia, graça, santificação e salvação, para que todos os que quisessem tributar-lhe e procurar-lhe toda a honra, glória e amor que estivessem em seu poder, Ele os enriquecesse com abundância e profusão destes divinos tesouros do Coração de Deus que deles é a fonte”15. E numa carta a sóror de la Barge, conclui assim: “Amemos, pois, esse único amor de nossas almas, já que Ele foi o primeiro a nos amar e nos ama ainda com tanto ardor que se inflama continuamente no Santíssimo Sacramento. Não é necessário mais que amá-lo, este Santo dos Santos, para se fazer santa uma alma. Quem nos impedirá, pois, de o ser, já que temos corações para amar e corpo para sofrer?... Não há senão o seu puro amor que nos leve a fazer tudo o que lhe agrada; não há senão este perfeito amor que nos leve a fazê-lo do modo que lhe agrada; e não pode haver senão este amor perfeito que nos leve a fazer todas as coisas, quando lhe agrada”16.

2º. Mas o segundo destes atos é a reparação; porque o amor é ultrajado pelas ingratidões dos homens, como o próprio Cristo Senhor Nosso declara na terceira grande aparição:

Eis aqui este Coração que tanto tem amado os homens, que nada poupou até se esgotar e consumir para lhes testemunhar o seu amor; e, em paga, não recebo da maior parte deles senão ingratidões pelas suas irreverências e sacrilégios e pelas friezas e desprezos que tem para Comigo neste Sacramento de amor”. E, então, pede-lhe que repare essas ingratidões pelo fervor do seu amor: “Minha filha, eu venho ao coração que te dei, para que pelo teu ardor repares as injúrias que tenho recebido dos corações tíbios e frouxos que Me desonram no Santíssimo Sacramento”.

Estes dois atos nos santificarão em extremo: o amor, unindo-nos intimamente ao Sagrado Coração de Jesus, far-nos-á comungar nas suas virtudes e dar-nos-á coragem de as praticar, a despeito de todos os obstáculos: a reparação, fazendo que nos compadeçamos dos sofrimentos de Jesus, estimulará ainda o nosso fervor e nos levará a padecer corajosamente por amor todas as provações, a que Ele se dignar associar-nos.

Assim entendida, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus não terá nada de afetado, nem de efeminado: será o próprio espírito do Cristianismo, uma feliz combinação de amor e sacrifício, acompanhada do exercício progressivo das virtudes morais e teologais. Será uma como síntese da via iluminativa e uma feliz iniciação da via unitiva.

Pe. Mário Corti
e o Viver na Graça do Sagrado Coração de Jesus17

1 – Quem é Jesus Cristo – Só conhecemos o que uma pessoa é, quando chegamos a penetrar no seu íntimo: não basta conhecê-la por aquilo que aparece por fora. Mas, infelizmente, é fato, que muitos homens, tem como que duas caras: uma honesta – a que mostram ao público – outra egoísta e desdenhosa – a que tem reservada no seu íntimo e só manifestam na sua vida particular.

Jesus Cristo, porém, não é assim. Ao contrário, quanto melhor conhecemos o Seu íntimo, tanto mais nos sentimos atraídos para Ele.

Se queremos conhecê-lO bem e evitar o desleixo e superficialidade em matéria de religião, que são tão comuns no nosso tempo, procuremos abrir o Evangelho. No Evangelho, Deus revela-se a Si mesmo. Assim como o camponês sabe falar com acerto do seu campo, um operário mecânico da sua arte, um professor dos seus estudos, assim também Deus sabe falar com acerto de Deus, o sabe revelar-se tal como é.

Compreenderás o Coração de Deus nas palavras do mesmo Deus”, diz São Gregório.

Causa-nos impressão sobretudo, segundo dizia Pio XII, – o modo como Jesus sabe transfundir nas suas palavras a sua Alma, juntamente, com as riquezas inexauríveis da sua sabedoria e do seu amor, de modo que as suas mesmas palavras são um espelho fiel da sua Pessoa”.18

Ao percorrer as páginas do Evangelho, nota-se como Jesus possui um conjunto admirável de qualidades, tais como uma sensibilidade profunda, uma inteligência penetrante, uma vontade enérgica e uma bondade sem limites.

Ele admira com delicadeza de sentimentos a vida simples da aldeia da Palestina. Jesus não é de nenhum modo um homem alheado das coisas, um visionário. Pelo contrário, tem os olhares bem abertos às impressões da vida que O rodeia; aponta com traços rápidos, mas claros e precisos, tudo aquilo que passa debaixo dos seus olhos. Observa os meninos que brincam na praça, o pobre que espera à porta do rico; os pássaros do Céu, que o Pai Celestial sustenta; a galinha, que esconde os pintainhos debaixo das suas asas, e o lavrador, que segura o arado mas volta o rosto para trás a ver se o rego vai direito; o ceifeiro nos campos, o vinhateiro no meio da sua vinha, o pastor que vai à procura da ovelha perdida, o negociante que procura pérolas preciosas.

Admira as flores do campo, que seu Pai reveste de mais esplendor do que Salomão, mostra-se encantado pelo olhar cheio de inocência e de alegria dos meninos que correm atrás d'Ele.

Toda a Palestina tem reflexos na Alma serena de Jesus, e por consequência nas suas palavras e nas suas parábolas; assim, as colinas, os prados, os rebanhos, as vinhas, o belo lago, as estações do ano, o povo robusto dos pescadores e dos camponeses.

Jesus Cristo, além disso, mostra possuir uma inteligência extraordinária. Sirva de prova um episódio: os judeus, astutos como eram, armaram-Lhe uma cilada, bem preparada, para O comprometerem; mas Ele, sem demora, vence essa astúcia, solucionando a questão com estas palavras: “Dai a Deus o que é de Deus, e a César o que é de César”. Desde essa hora não mais tentaram lançar-Lhe semelhantes ardis, para não ficarem confundidos perante o povo. Não lhes é possível apanhá-Lo em falta: Ele tem sempre a palavra a tempo e as suas respostas são de uma sabedoria por ninguém imaginada. Possui a consciência de dizer sempre a palavra definitiva, aquela palavra da qual depende o curso das coisas.

Indica com clareza e precisão admiráveis, a todos os homens, o termo para o qual se devem dirigir, mostrando-lhes donde vem e para onde vão. “Ele é a Luz para todo o homem que vem a este mundo”. Os maiores sábios deste mundo, confrontados com Ele, são como crianças, capazes apenas de balbuciar.

Até ao fim, nunca há uma confusão, nenhum juízo duvidoso; na vida e na morte, marcha sabendo sempre o que iria acontecer.

Achá-Lo-emos em seguida, como um natural concomitante disto, sempre claro, firme e decisivo nos seus conceitos, falando sempre “como quem tem autoridade”, de sorte que os seus inimigos eram forçados a exclamar: “Nunca ninguém falou como este homem fala”.

Nós O encontraremos sem se enganar na sua avaliação dos homens; Ele nunca se engana, nem se deixa levar pela impressão da superfície...

Possui, além disso, uma força de vontade verdadeiramente invencível: depois de quarenta dias de jejum, deveria sentir uma fome devoradora, e, todavia, repele sem hesitação alguma o Demônio, que O tentava para fazer um milagre, que Lhe matasse a fome. E tem palavras enérgicas repreendendo o mesmo Pedro, que O induzia a fugir da Cruz. Contra os escribas e fariseus usa palavras de fogo: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Insensatos e guias de cegos, que coais um mosquito e engolis um camelo: sois semelhantes aos sepulcros branqueados, que tem paredes formosas por fora, mas por dentro estão cheios de ossos e de toda a sorte de imundície”.

Esta severidade do Salvador tinha origem no amor à sua Missão: as almas devem ser desenganadas e salvas a todo o custo, e por isso, os mestres do erro devem ser denunciados e os hipócritas desmascarados. Jesus é de uma sinceridade e de uma retidão de ânimo absolutas, e por isso, foge de toda a duplicidade: nada de política, nada de interesses egoístas, nada de ligação com os grandes deste mundo, com os servos do prazer. Jesus é sempre natural e espontâneo nos seus modos. Nada de convencional. A sua vida, bem como as suas palavras, são límpidas como a água que brota de uma fonte puríssima.

Este conjunto de qualidades diversas, em Jesus Cristo, como se vê no Evangelho, estão unidas entre si num equilíbrio moral perfeito: energia e mansidão, majestade e doçura, autoridade e condescendência.

E é assim que o seu temperamento nunca perde o equilíbrio. Está sempre sereno, mesmo nas circunstâncias mais trágicas; está sempre com igual humor, mesmo nos trabalhos mais fatigantes. Percorria, no mesmo dia, dezenas de quilômetros, para ir às várias localidades da Palestina; em seguida falava ao ar livre a milhares de ouvintes, instruía aos seus Apóstolos e, depois de tanto trabalho diurno, passava grande parte da noite em oração. Nele não se veem esses saltos bruscos de entusiasmo, seguidos de desânimos profundos, que se encontram até na vida de grandes homens e mesmo em alguns Santos.

Na sua Paixão, esse equilíbrio moral chega ao maravilhoso, tão surpreendente é. Com efeito, os homens, quando se encontram dominados por uma dor intensa que esmaga corpo e alma, deixam cair a máscara, e mostram o que na realidade são.

Jesus, porém, no meio dos tormentos acerbíssimos da Cruz, continua como sempre foi, nada n'Ele convencional e de afetado, mostrando-se ao mesmo tempo bem longe de toda a fraqueza.

É verdade que a sua sensibilidade rompe em palavras de angústia, mas a sua vontade permanece sempre comedida, sempre firme na vontade de seu Pai: “Pai, não se faça a minha vontade, mas a Vossa!”

A vida de Jesus, manifestada no Evangelho, é a mais bela “Imagem de Deus; é Deus feito homem”.

Todas as pessoas, mesmo os simples, ficavam de tal modo cativados pela Pessoa de Jesus, que O escutavam durante dias inteiros, e iam em massa de um lugar para outro a fim de ouvirem as suas palavras, sempre cheias de amor. E esta qualidade é justamente a que mais impressiona.

Sempre afável e misericordioso, mostra compaixão diante de todas as misérias, tanto da alma como do corpo: “Olhando para aquela gente, compadeceu-se dela, porque estava fatigada e quebrantada, como ovelhas sem pastor”, e exclama: “Tenho compaixão dessa gente, porque há já três dias que Me seguem e não tem que comer”.

O AMOR é o que domina toda a vida de Jesus Cristo. Ele é, com efeito, a Pessoa, que amou neste mundo mais que ninguém. Ninguém, como Jesus, amou tanto os homens. Pode bem dizer-se que Ele é todo amor, mas amor forte, varonil e santo: um amor que O leva a derramar todo o seu Sangue para nos dar a vida da graça. E porque tanto ama, sente, muito deveras, a amizade. Chora diante da sepultura de seu amigo Lázaro, e os que notavam os seus suspiros exclamavam: “Vede como Ele o amava!”

E ama tanto a sua pátria que chora pensando nas desgraças que vão cair sobre ela.

Tem, além disso, um amor ardentíssimo pela família. Depois do amor de seu Pai Celestial, o seu maior amor é por sua Mãe, Nossa Senhora. No meio de sofrimentos atrozes, pouco antes de exalar o último suspiro, o seu pensamento voa para Ela, que está aos seus pés e em breve vai ficar só, e por isso, a confia a João, e seu discípulo amado.

E que grande amor mostrou à sua Mãe na casinha de Nazaré, onde passou os anos da sua juventude, e a S. José durante os dias em que estiveram juntos no trabalho! Bastará recordar que fez o seu primeiro milagre justamente para contentar sua Mãe. E que grande foi o seu amor pelos homens! Percorrendo os caminhos da Palestina, demorava-se a falar, principalmente com os humildes e com os pobres; dava a saúde aos pobres doentes, consolava os que choravam, a todos ajudava; a todos anunciava a grande novidade, que Ele tinha vindo ao mundo para dar aos homens a vida da graça.

E que grande amor manifestam as parábolas da ovelha perdida e do filho pródigo!

Na verdade, as suas preferências são pelos pecadores! Gosta do título que os judeus, por injúria, lhe dirigem de amigo dos pecadores. Ama-os com aquela ternura constante e solícita que todas as mães sentem por seus filhos, que estão doentes.

Acolhe com extraordinário amor tanto à Madalena como a Zaqueu, trata Judas até o fim com a mesma delicadeza.

A todo o tempo encontraremos n'Ele o mais terno dos corações, um pai, uma mãe, um irmão, uma irmã, um verdadeiro e não um protetor ou condescendente amigo, o exato igual de cada um e de todos, com uma simpatia individual e compreensiva para cada coração que a Ele se descobre...

Por outro lado, Ele nunca está cansado, ou demasiado indulgente ou meigo, ou demasiado cego pela afeição para ver o mal ou as deficiências do seu amado. Ele dá amor prodigamente e a todos os que o querem ter, mesmo aos mais privados de amor humano; contudo, ninguém O teria por lânguido ou sentimental. Ele ganha amor daqueles que são conquistados pela Sua presença, porque Ele é tão sincero, tão forte, tão desinteressado em intenções, tão franco, tão incapaz de enganar...

Ele não força os homens; Ele tem-lhes demasiado respeito para os compelir: Ele se lhes oferece a Si mesmo e espera o resultado...

Mas é inútil prosseguir neste retrato; à proporção que vamos para diante, a fascinação cresce; a cada novo passo, vemos mais e mais, porque Ele é totalmente transparente; e contudo, em cada ponto em que paramos, sentimos que não dissemos nada”.19

E na verdade, percorrendo as páginas do Evangelho, compreendemos a razão por que Jesus disse a Santa Margarida Maria Alacoque com um acento de tristeza infinita: “Os homens não Me amam, porque não Me conhecem!” Santa Teresa, que teve a felicidade de ver a beleza de Jesus, expressa-se com estas palavras na sua autobiografia: “A vista de Jesus Cristo imprimiu tão profundamente na minha alma a sua beleza incomparável que ainda a tenho presente.

Eu tive um defeito gravíssimo, do qual me tinham vindo grandes males. Quando notava que uma pessoa me queria bem e me era simpática, tanto me afeiçoava a ela que a tinha sempre na lembrança. Não que eu quisesse ofender o Senhor, mas comprazia-me em ver essa pessoa, em pensar nela e nas boas qualidades que possuía. E tanto bastava para que a minha alma andasse desencaminhada, tal era o dano que aquele afeto me causava. Mas depois de ter visto a grande beleza do Senhor, não mais houve pessoa que comparada com Ele me parecesse tão amável que ocupasse o meu espírito. Para ter o coração completamente livre, basta-me lançar o olhar para a Sua imagem que trago comigo, e diante da beleza e das perfeições do meu Senhor, todas as coisas deste mundo só servem para me dar enfado.

Não há ciência, nem prazer que se possa estimar em comparação com uma só palavra proferida por aquela Boca divina... Portanto, creio que nenhuma pessoa poderia ocupar o meu espírito, a não ser que, em castigo dos meus pecados, Deus permitisse que eu perdesse aquela lembrança. Para dela me libertar bastaria a mais ligeira recordação de Jesus...

E bem compreendo que se Ele é Deus, também é homem, e como tal não somente não se admira da fraqueza humana, senão que sabe muito bem que esta nossa miserável natureza está sujeita a muitas quedas por causa do primeiro pecado que Ele veio reparar.

E, embora também seja Deus, posso tratar com Ele como se trata com um amigo. Ele não é como os senhores deste mundo, os quais fazem consistir toda a sua grandeza numa ostentação externa de autoridade...

Quem Vos considera, fica cheio de espanto, sobretudo vendo-Vos tão humilde e tão cheio de amor para com uma criatura como eu. Passada a primeira impressão de temor que nasce à vista de tamanha grandeza como é a Vossa, podemos tratar e falar conVosco livremente. E depois, com outro temor maior qual é o de Vos ofender, mas já não é por temor do castigo, pois nessa ocasião para a alma já não haveria maior castigo que perder-Vos”.20

E é bem natural que Jesus arrebate nossos corações logo que chegamos a conhecê-Lo. Santo Agostinho exprime muito bem esta verdade: “Se o poeta pode dizer: Cada qual é atraído por aquilo que lhe agrada21 não pela necessidade, mas pelo prazer, não pela violência, mas pelo gosto, quanto devemos nós dizer que é mais forte a atração de Cristo sobre o homem que se deleita na verdade, sendo Cristo isso tudo?...

Dai-me alguém que ame na verdade e entenderá o que eu digo; dai-me alguém que sinta fome; dai-me alguém que tenha sede; dai-me alguém que esteja desterrado e sedento neste vale solitário; dai-me alguém que suspire pela pátria eterna; dai-me alguém que esteja nestas condições e ele entenderá bem aquilo que eu estou dizendo.

Mas se eu falo com quem é de gelo, esse não entenderá aquilo que eu digo... Mostra um ramo verde a uma ovelha e ela é atraída; mostra nozes a um menino e ele é atraído... é atraído pelo amor, é atraído sem violência corporal, é atraído pelos laços do coração. Portanto, se estas coisas, que se apresentam como deleites e prazeres terrenos àqueles que as amam, os atraem, pois que se verifica aquele dito: Cada qual é atraído por aquilo que lhe agrada, como não nos deverá atrair Jesus Cristo, revelado pelo Pai?”22

Ora, é bem verdade que Jesus Cristo uma vez conhecido na sua Vida interna arrebata o coração, pois Ele não é senão amor.

Ensinava justamente Pio XII: “Quem não compreende o amor, não compreende quem é Jesus, Amor encarnado”.23

E, aliás, não poderia ser de outra maneira. De fato, Jesus Cristo é Deus feito homem. Ora, Deus é amor, como Ele mesmo disse. Por isso, se Deus se fez homem, não pode ser senão AMOR.

Deus não pode deixar de ser aquilo que é. Se Jesus Cristo não tivesse sido amor, não seria Deus.

O Apóstolo São Paulo exalta com palavras inflamadas as glórias e primazias de Cristo. O Pai... livrou-nos do poder das trevas e transferiu-nos para o reino do Filho do seu amor; no qual pelo seu Sangue temos a Redenção e Remissão dos pecados... Tudo foi criado por Ele e para Ele. E Ele é a Cabeça do Corpo da Igreja, e é o Princípio, o Primogênito entre os mortos: de maneira que tem a primazia em todas as coisas. Porque foi do agrado do Pai que residisse nELe toda a plenitude e que por meio dEle fossem reconciliadas consigo todas as coisas, fazendo as pazes mediante o Sangue da sua Cruz, tanto com as coisas da terra como as do Céu”.24

Jesus é a fonte da graça, pois, “todos nós recebemos de Sua plenitude, graça sobre graça. Pois, a Lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo”.25

2 – O que é a devoção ao Coração de Jesus – … não é mais que a devoção (que quer dizer conhecimento, dedicação e entrega) ao amor de Jesus manifestado no símbolo mais eloquente e claro desse mesmo amor, que é o coração.

Coração de Jesus é o Jesus autêntico do Evangelho, que tem um coração “bondoso e cheio de misericórdia”, que é o “amigo dos pecadores” e que nos amou desde o presépio à Cruz e ficou por nosso amor no Sacrário.

Santo Afonso Maria de Ligório escreveu: “A devoção ao Coração de Jesus é a mais bela e a mais sólida do Cristianismo. A mais bela, porque o mais belo atributo de Cristo e o seu amor, que nesta devoção honramos. A mais sólida, porque é a devoção ao amor de Jesus, origem da Encarnação e de todos os seus atos. É, pois, maior que a devoção ao Menino Jesus, à Paixão, ou ao Santíssimo Sacramento, porque nela veneramos o amor de Cristo, causa do seu Nascimento, da sua Morte e da sua permanência Eucarística”.

Ter devoção ao Coração de Jesus é acreditar no seu amor e viver para Ele em doação completa e desinteressada. É repetir com o Apóstolo S. João: “Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para conosco”.26

Não se deve, pois, entender esta devoção como mole, afetada, sentimental, consistindo em observar certas práticas de piedade e derramar algumas lágrimas deixando intactos os vícios e paixões. Nada há mais contrário à devoção do Coração de Jesus que, entendida retamente, significa e exige dedicação a Jesus, forte, varonil, nobre e que estimula às virtudes heroicas.

Assim a julgaram os últimos Sumos Pontífices.

No Coração de Jesus se há de colocar toda a esperança; a Ele há que pedir e dEle se há de esperar a salvação dos homens”.27

O Coração de Jesus é o remédio para os males modernos”.28

Nesta devoção contem-se o resumo de toda a religião e ainda uma norma de vida mais perfeita, pois guia suavemente as almas ao conhecimento de Nosso Senhor e estimula-as eficazmente a amá-Lo com todo o coração e a imitá-Lo de perto. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é a substância da religião”.29

Mas, entre todos os Papas, nenhum melhor que Pio XII expôs o que é a devoção ao Coração de Jesus na sua magistral Encíclica “Haurietis Aquas”, de que vamos extrair alguns parágrafos mais significativos.

Introdução: “Se tu conhecesses o dom de Deus”. Eis, Veneráveis Irmãos, a paterna recomendação que Nós – chamado por divina disposição a ser guarda do tesouro da fé e da piedade, que o divino Redentor confiou à sua Igreja – sentimos o dever de dirigir a todos.

O Coração de nosso Salvador é em certo modo imagem da divina Pessoa do Verbo, e da sua dupla natureza, humana e divina; e poderemos considerar nEle não só um símbolo, mas também uma espécie de compêndio de todo o mistério da nossa Redenção.

Esta inerente ao Sagrado Coração, como observa o Nosso Predecessor de imortal memória Leão XIII, a qualidade de símbolo e de imagem expressiva da infinita caridade de Jesus Cristo, que nos leva a correspondermos ao seu amor.

Estamos, de fato, plenamente persuadidos de que só quando, à luz da divina revelação, penetrarmos todos, mais a fundo, a íntima e essencial natureza deste culto, seremos capazes de apreciar devidamente a sua incomparável excelência e a inexaurível fecundidade em toda a espécie de graças do Céu!...”

Em que consiste esta devoção: “Para podermos, quanto é permitido a homens mortais, “compreender com todos os santos, qual é a largura e o comprimento, a altura e a profundidade” da misteriosa caridade do Verbo Encarnado para com seu Pai celeste e para com os homens manchados com tantas culpas, é preciso ter bem presente que o seu amor não foi só espiritual, qual a Deus compete... O Coração do Verbo Encarnado é considerado o principal sinal e símbolo daquele tríplice amor, com que o Divino Redentor ama continuamente o Eterno Pai e todos os homens. É primeiramente o símbolo do amor divino, que Ele tem em comum com o Pai e com o Espírito Santo, mas que só nEle, porque o Verbo feito carne se manifesta através do frágil e caduco corpo humano... É também símbolo daquela ardentíssima caridade infundida na sua Alma, que é qualidade preciosa da sua vontade humana... Finalmente – e isto de modo ainda mais natural e direto – o Coração de Jesus é também símbolo do seu amor sensível, pois o Corpo de Jesus Cristo, formado no seio castíssimo da Virgem Maria por obra do Espírito Santo, possui capacidade sensitiva e perceptiva perfeitíssima, superior à de qualquer outro corpo humano...

Ensinando-nos os Textos Sagrados e os documentos autênticos da fé católica que reina perfeita consonância e concórdia na Alma santíssima de Jesus Cristo, e que Ele dirigiu, para nos remir, todas as manifestações do seu tríplice amor, nós podemos com toda a segurança contemplar e venerar o Coração do Divino Redentor como imagem expressiva da sua caridade e testemunho da nossa Redenção, e também como mística escada para subir ao amplexo de Deus, nosso Salvador. Por isso, nas palavras, nos atos, nas ordens, nos milagres e especialmente nas obras que melhor testemunham o seu amor para conosco – como a instituição da Divina Eucaristia, a sua dolorosa Paixão e Morte, a generosa dádiva da sua Santíssima Mãe, a fundação da Igreja para proveito nosso, e a missão do Espírito Santo aos Apóstolos e a todos nós – em todas estas obras, repetimos, devemos admirar outros tantos testemunhos do seu tríplice amor e meditar as pulsações do ardentíssimo amor do seu Coração Santíssimo, com as quais parecia contar os instantes da sua peregrinação terrena, até ao supremo instante, em que, como dizem os Evangelistas, gritando com voz forte, disse: Está consumado. E inclinando a cabeça, entregou o espírito. Foi, então, que o palpitar do seu Coração se deteve e o seu amor sensível ficou suspenso até ao momento em que, triunfando da morte, se levantou do sepulcro. Mas desde que se uniu de novo o Corpo, glorioso agora, com a Alma do Divino Redentor, vitorioso da morte, nunca o seu Coração Sacratíssimo deixou nem deixará de bater, regular e calmo, nem nunca deixará de significar o tríplice amor que une o Filho de Deus com o seu Pai do Céu e com a comunidade humana inteira de que é, com pleno direito, a Cabeça mística...”

Defesa e incitamento. “É digna, pois, da maior estima esta forma de culto, que permite ao homem honrar e amar a Deus mais intensamente, e consagrar-se com maior facilidade e prontidão à caridade divina; tanto mais quanto é certo que o nosso Redentor se dignou propô-la e recomendá-la ao povo cristão, e os Sumos Pontífices confirmaram-na com grandes louvores. Por isso, coisa temerária e prejudicial seria, e até ofensa de Deus, ter em menos estima tão insigne benefício, concedido por Jesus Cristo à sua Igreja.

Sendo assim, não há dúvida que os fiéis, ao honrarem o Sacratíssimo Coração de Jesus, cumprem o gravíssimo dever que têm de servir a Deus, e ao mesmo tempo de consagrar ao Criador e Redentor as suas pessoas e atividades, tanto externas como internas, e cumprem deste modo o Mandamento divino: Amarás ao Senhor teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o espírito e com todas as tuas forças.

Assim incitamos todos os nossos filhos em Cristo a praticar esta devoção com entusiasmo...

Para tantos males, que hoje como nunca, perturbam profundamente os indivíduos, as famílias, as nações e o mundo inteiro, onde ir buscar remédio, Veneráveis Irmãos? Poder-se-á, porventura, encontrar forma de piedade superior ao culto do Coração de Jesus, que melhor corresponda à índole da fé católica e mais se adapte às necessidades hodiernas da Igreja e da humanidade? Que devoção mais nobre, mais suave e mais salutar, uma vez que este culto se dirige todo a Cristo – que a piedade para com o Sagrado Coração de Jesus cada dia mais aumenta e favorece – para levar os cristãos à prática do Evangelho, sem a qual não pode haver verdadeira paz entre os homens?...

Por isso, seguindo o exemplo de Nosso imediato Antecessor, apraz-nos também a Nós repetir aqui aquela exortação que Leão XIII, de imortal memória, dirigia no fim do século passado aos fiéis do mundo inteiro e a todas as pessoas sinceramente preocupadas com a salvação de si mesmas e da sociedade: Eis que se oferece hoje, aos nossos olhos, outro sinal muito favorável e divino: O Coração Sacratíssimo de Jesus... brilhando entre chamas com esplêndido fulgor. Nele se devem colocar todas as esperanças; a Ele se há de pedir e dEle esperar a salvação dos homens.

É ainda ardentíssimo desejo Nosso que todos os que se gloriam do nome de cristãos e lutam estrenuamente pelo estabelecimento do Reino de Cristo no mundo, tenham a devoção ao Coração de Jesus como bandeira e princípio de unidade, de salvação e de paz. E ninguém julgue que este culto prejudica em alguma coisa as outras formas de piedade, com que o povo cristão, dirigido pela Igreja, honra o Divino Redentor. Pelo contrário, a fervorosa devoção ao Coração de Jesus há de, sem dúvida, favorecer e promover sobretudo o culto da Santíssima Cruz e, do mesmo modo, o amor ao Augustíssimo Sacramento do Altar. Podemos na verdade afirmar – como põem em evidência as revelações a Santa Gertrudes e a Santa Margarida Maria – que ninguém chegará nunca a compreender deveras a Jesus Crucificado, sem penetrar nos arcanos do seu Coração. Nem é fácil perceber a força do amor que levou Cristo a dar-se-nos como alimento espiritual, sem professar especial devoção ao Coração Eucarístico de Jesus... O culto tributado ao Sacratíssimo Coração de Jesus é digno de ser considerado como a profissão ideal de todo o Cristianismo”.30

3 – Palavras de Jesus: “Fica sabendo – disse Jesus a Santa Margarida Maria – que não há exercício de piedade mais próprio para elevar em breve tempo uma alma à mais alta perfeição”.31

A experiência confirma exuberantemente esta afirmação. A devoção ao Coração de Jesus, retamente entendida e bem praticada, favorece a estima pela vida interior, alma de todas as obras externas; faz aborrecer o legalismo, o formalismo, que tantas vezes transforma o homem num sepulcro branqueado, o orgulho e a superficialidade, que são as maiores chagas da piedade atual. Faz vencer todas as manifestações do amor-próprio; favorece o conhecimento íntimo e o amor pessoal a Jesus; desenvolve o amor à abnegação, ao sofrimento, à cruz. Devoção inimiga da frieza intelectual, põe em primeiro lugar o amor, síntese dos nossos deveres para com Deus. É impossível encontrar uma alma com verdadeira devoção ao Coração de Jesus que não seja fervorosa e santa.

A alma de toda a vida cristã é o amor a Deus. A este propósito é interessante a observação que, de si mesmo, faz Dom Goodier, S.J.:

Quando eu era mais jovem, noviço de uma Congregação, e me conhecia menos, e conhecia os outros menos, e estava cheio de grandes ambições na vida espiritual e procurei nos livros e no estudo, e cogitei planos e esquemas no papel para me serem guias para o cume da perfeição, coloquei as virtudes diante de mim, e meditei na sua beleza e propus-me adiquirí-las, subdividindo-as, analisando-as, dispondo-as por graus como degraus de uma escada. – Esta semana, como os bons escritores espirituais me mandavam, eu devia adquirir a virtude da paciência; na semana seguinte, eu devia guardar cuidadosamente a língua; na terceira semana seria a vez da caridade; depois seguir-se-ia o espírito de oração; e num mês ou dois, talvez, eu poderia ter um êxtase e ver Nosso Senhor.

Mas agora que me tornei mais velho, e que me encontra ainda lutando pela primeira destas virtudes, e isso num grau muito elementar, e me ensinaram lições muito diferentes das que eu sonhei, em parte pelas tristes surpresas na minha própria alma, em parte pelo progresso visto nas almas dos outros, estou convencido de que há UM caminho para a perfeição, melhor do que todos os mais; de fato, se desprezarmos este, nenhum outro nos será de grande proveito... Não é possível crescer no conhecimento, no amor e na imitação de Jesus Cristo, sem ao mesmo tempo crescer na perfeição de cada virtude e tornar-se mais santo cada dia.

A santidade começa somente quando o CORAÇÃO está afetado. E isto faz-se quase apenas pelo AMOR...

A imitação de Cristo inclui todas as virtudes, fá-las inconscientemente nossas, produzi-las de si mesma, e não as traz meramente de fora...

A caridade adquirida mediante o amor de Jesus Cristo é liberta de toda a falsidade; começa de dentro; ordinariamente, ao princípio, como o jato de uma nascente rompendo através da terra, dá um fraco sinal da sua verdadeira natureza; vive na solidão, esconde o seu tempo, mostra a sua caridade sobretudo pela paciência e duração, pela humilde submissão e serviço; entretanto, afina com Ele, aprende a amar como Ele ama, pela razão de que Ele ama, pelo modo por que ama. E quando chega o dia do sacrifício, este amor não se encontrará ausente”.32

A devoção ao Coração de Jesus é devoção própria das almas dedicadas ao apostolado, segundo a palavra de Jesus à mesma Santa Margarida: “Todos os que se dedicam à salvação das almas terão o dom de comover os corações mais endurecidos e trabalharão com frutos maravilhosos se estiverem compenetrados de uma terna devoção ao Coração de Jesus, e se procurarem propagá-la e estabelecê-la por toda a parte... e se forem procurar todas as suas luzes a esta fonte”.33

O médico não ama um amigo se não fizer quanto puder para lhe salvar da morte o filho; o advogado não é amigo da mãe se não se esforça por lhe livrar o filho da cadeia. Quanto fazem os professores para ajudarem os filhos dos seus amigos a passarem nos exames! Evidentemente não seriam declarações sinceras de amor ao Coração de Jesus, as nossas, se ficássemos indiferentes diante da ruína eterna das almas e não fizéssemos todo o possível pela sua salvação.

4 – Prática: a) A Consagração é a entrega sem reservas ao Sagrado Coração. Deve ser bem preparada, feita com muita seriedade e muitas vezes renovada, de maneira que chegue a ser norma de vida.

A consagração ao Sagrado Coração, entendida como Jesus a quer, deve ser vivida praticamente, momento por momento, durante todo o dia, até ao esquecimento total de si.

O apóstolo, depois de viver em si a consagração, deve procurar que todos realizem e pratiquem este ato, que é a entrega de toda a vida ao Senhor, como mais adiante explicaremos ao tratar das práticas promovidas pelo Apostolado da Oração.

Por isso, o verdadeiro apóstolo do Coração de Jesus emprega todos os seus esforços para que os fiéis vivam em graça, a fim de não ofenderem o Coração de Jesus e de se entregarem a Ele por meio da Consagração. Esta exige como mínimo indispensável a graça de Deus na alma, como acentuava o Papa Pio XII: “Quem não tem a alma em graça não pode consagrar-se a Jesus. Como é possível que cumpra tal ato quem vive em pecado e desobedece à sua lei? E para se consagrar é necessário estar na graça de Deus; para viver a consagração é preciso estar pronto a dar mais, a entregar-se mais”.34

b) A Reparação ocupa parte muito importante nesta devoção porque – como ensina o Papa Pio XI – os pecados e os delitos dos homens, cometidos em qualquer tempo, foram a causa de que o Filho de Deus fosse entregue à morte, e, também no presente, causariam a morte de Cristo, acompanhada das mesmas dores e das mesmas angústias, visto que cada pecado se considera renovação, de alguma maneira, da Paixão do Senhor...” E por isso, ao manifestar-se a Santa Margarida Maria, disse Jesus: Eis o Coração que tanto tem amado os homens e os cumulou de benefícios, e em paga do seu amor infinito, em vez de gratidão, encontra esquecimento, indiferenças, ultrajes, e estes causados algumas vezes até pelas almas a Ele obrigadas pela dívida mais estrita de especial amor”. Precisamente em reparação de tais culpas, entre outras muitas recomendações faz estas, em particular, como muito agradáveis a Si: que os fiéis com intenção de desagravo se aproximassem da Sagrada Mesa para fazerem a Comunhão Reparadora e durante uma hora inteira realizassem atos de oração e de reparação à qual com toda a propriedade se dá o nome de Hora Santa; devoções estas que a Igreja não só aprovou, mas também enriqueceu com copiosos favores espirituais...

Como se pode, porém, dizer que Cristo reine feliz no Céu, se pode ser consolado por estes atos de reparação? Dai-me uma alma que ame e compreenderá o que digo – respondemos com palavras de Santo Agostinho que vêm muito ao nosso propósito.

Os sofrimentos estão completos, mas na Cabeça. Faltavam, no entanto, os sofrimentos de Cristo que se devem completar no Seu Corpo... Quem considerar com os olhos do corpo e com o espírito este mundo todo posto em malícia não pode ignorar quanto seja urgente, especialmente neste nosso século, a necessidade da expiação ou reparação...

Mas onde abundou o delito, superabundou a graça. Crescendo na verdade a perversidade dos homens, vai também crescendo maravilhosamente, por graça do Espírito Santo, o número dos fiéis de um e outro sexo que, com ânimo mais generoso, se esforçam por dar satisfação ao Coração divino de Jesus por tantas injúrias que Lhe são infligidas e que não temem até oferecer-se a si mesmos como vítimas...

Se por causa dos nossos pecados futuros, mas previstos, a Alma de Jesus se entristeceu até a morte, não se pode duvidar que experimentou desde então, pela previsão da nossa reparação, algum conforto quando Lhe apareceu o Anjo do Céu para consolar o Seu Coração oprimido pelas tristezas e pelas angústias”.35

c) Apostolado da Oração. São milhões de associados que cada dia oferecem à Santíssima Trindade a sua vida e as suas obras em união com o Coração de Jesus e por meio do Coração Imaculado de Maria. Com que fim? Segundo as intenções pelas quais o mesmo divino Coração está continuamente intercedendo e sacrificando-se em nossos altares. É a vida da mais íntima união com o Coração de Jesus e as suas intenções, que são a glória de Deus pela salvação das almas.

O Apostolado da Oração é uma escola de vida interior, porque sobrenaturaliza e santifica toda a vida e a une aos Sagrados Corações de Jesus e Maria para a glória da Santíssima Trindade.

É um apostolado autêntico: toda a vida se une a Cristo para propagar a sua glória e servir à Santa Igreja. O oferecimento exige o dom de si para a glória de Deus e a salvação das almas.

É a grande organização mundial da oração – a Internacional da Oração – com mais de 40 milhões de associados, dóceis às orientações da Santa Igreja para a grande empresa da salvação das almas, às ordens do Santo Padre que determina cada mês as intenções para a oração vital do dia. É uma associação que quer transformar em oração apostólica a vida de todos os cristãos: Sacerdotes, Religiosos e Leigos.

Os Sumos Pontífices têm cumulado de elogios esta associação tão simples, sobrenatural e prática.

Entre todos os meios encontrados pelos fiéis para curar, efetivamente, os males que atormentam a sociedade humana, não há nenhum outro mais útil do que o “Apostolado da Oração”.36

Recomendamos ardentemente o Apostolado da Oração a todos os fiéis sem exceção, desejando que ninguém deixe de nele se alistar”.37

Este apostolado da Oração é fácil e, entre todos os gêneros de apostolado, é o único possível a toda a gente, e, por conseguinte, obrigatório, de modo que todos os cristãos deveriam pertencer ao Apostolado da Oração. É a vossa missão, diretores, e não estará cumprida, enquanto houver uma alma a conquistar para o Apostolado da Oração”.38

Esta instituição está intimamente ligada com os progressos da Igreja e o bem das almas”.39

Também Nós, como o Nosso Predecessor de feliz memória, declaramos que seria gratíssimo ao nosso coração que os fiéis cristãos, todos a uma, se alistassem nesta sagrada milícia”.40

Ao aprovar os nossos Estatutos41 enaltece o Apostolado da Oração como um compêndio ou resumo da ação pastoral: “Pelo fato de proporcionar uma forma perfeitíssima da vida cristã, o Apostolado da Oração contém uma suma e uma regra compendiada da ação pastoral... Se os pastores de almas conduzirem as ovelhas que lhes estão confiadas até cumprirem com constância e empenho os atos recomendados pelo Apostolado da Oração, tenham para si que satisfizeram, sem dúvida, uma parte não pequena das suas obrigações”.

Por outras palavras, diz o Santo Padre, que o Pároco ou Sacerdote com cura de almas que levar os fiéis, confiados ao seu zelo, a realizarem os exercícios propostos pelo Apostolado da Oração, já cumpriu boa parte dos seus deveres pastorais.

Quais são os exercícios recomendados por esta Associação? São o oferecimento do dia – união com Cristo e sobrenaturalização do viver diário – devoção à Sagrada Eucaristia por meio da participação assídua e fervorosa na Santa Missa com Comunhão frequente; devoção a Nossa Senhora manifestada na reza cotidiana do terço inteiro ou, pelo menos, de um mistério.

Além disso o Apostolado da Oração promove:

1º. Prática das Primeiras sextas-feiras: Procurem os Sacerdotes apóstolos que todos os fiéis cumpram, já desde crianças, esta devoção pedida pelo Coração de Jesus e autorizada com a Sua promessa. As condições requeridas são que a Comunhão se faça em estado de graça, na primeira sexta-feira de nove meses seguidos com a intenção de reparar as ofensas ao Sagrado Coração de Jesus. A quem assim proceder promete o Coração de Jesus a graça de não morrer em pecado mortal.

Esta promessa – chamada a Grande Promessa – dá segurança moral da salvação. Tal certeza baseia-se nas revelações feitas por Nosso Senhor a Santa Margarida Maria, pessoa equilibradíssima em todas as suas faculdades, de nenhum modo iludida ou nevrótica e por outro lado tão escrupulosa e santa que não teria mentido nem ainda a custo da própria vida. Funda-se, sobretudo, na aprovação mais augusta que se pode imaginar sobre a terra, a da Santa Sé, que referiu as palavras da Grande Promessa na Bula da Canonização da Santa, embora isto não as torne verdade de fé. Funda-se ainda nos efeitos admiráveis de santificação que produziu e produz nas almas. Muitos são os casos de grandes pecadores que, à hora da morte, recebem os Sacramentos, reconhecendo eles mesmos que tal graça lhes veio pelo cumprimento, noutros tempos, da prática das primeiras sextas-feiras. Pôr em dúvida a verdade desta grande promessa seria ir contra as regras da prudência humana. O grande moralista e insigne teólogo Pe. Vermeersch, professor longos anos da Universidade Gregoriana, escreve: A grande promessa dá a certeza moral suficiente para afastar toda a ansiedade, sem contudo dar ocasião à temeridade presunçosa”.

2º. Consagração das Famílias: Quer o Apostolado da Oração levar todos os indivíduos, famílias e agremiações a se consagrarem ao Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria.

Às famílias que se consagrarem ao Coração de Jesus entronizando a Sua imagem no próprio lar, fez Nosso Senhor estas consoladoras promessas:

Abençoarei as famílias em que for exposta a imagem do Meu Coração.

Darei a paz às suas famílias.

Abençoarei todos os seus empreendimentos.

Serei o seu refúgio seguro durante a vida e na hora da morte”.

3º. Reparação: As principais práticas reparadoras promovidas pelo Apostolado da Oração são a Hora Santa, a reparação paroquial e nacional, a festa do Coração de Jesus, etc.

A Devoção ao Sagrado Coração de Jesus42

A Devoção ao Sagrado Coração de Jesus tem por objeto material o Coração de Carne do Divino Salvador, que pulsava em Seu Peito como o nosso, e que era n'Ele, como em nós, o motor do sangue e água e o centro da vida orgânica. Foi deste Coração corporal, material de Nosso Senhor Jesus Cristo, que se disse: Foi varado da lança, e dEle saiu Sangue e Água. A Igreja começa o Ofício do Sagrado Coração, convidando-nos a adorá-Lo. Coração de Jesus, varado pela lança, vinde para adorá-Lo.

A Devoção ao Sagrado Coração de Jesus tem por objeto imaterial o Amor infinito, pelo qual se sacrificou por nós. Dando Seu Coração ao mundo, Jesus quer se fazer amar. No século XVII quando o Coração de Jesus obrava maravilhas, apareceu a seita Jansenística, composta de homens extraviados pelos princípios falsos da Cartesiana Filosofia; negavam o amor no coração do homem e no Coração de Deus.

O Calvário, a Eucaristia, a Graça protestavam contra sua doutrina; mas eles ousaram sustentar que essas três maravilhas da Divina Caridade para conosco eram o privilégio exclusivo de algumas almas predestinadas. Os homens chegaram até a se glorificar de não ter mais coração; e sua vida não passava de uma vida de abjeta vegetação, que não tem nome. Por toda a parte os cristãos se entibiaram, poucos se salvaram completamente desse terrível naufrágio. Foi então que Jesus não podendo mais, veio a esses homens que negavam Seu Amor. Curvado ao peso de Sua Cruz, coroado de espinhos, coberto de sangue, Ele descobriu Seu peito e apontando para Seu Coração disse: “Eis aqui Meu Coração: Ele está abrasado de um amor tão ardente por todos os homens, que não pode mais conter as chamas de Sua Caridade”.

Esse Coração Divino, diz a Bem-aventurada Margarida Maria, que O viu oitenta vezes, parecia uma fornalha capaz de abrasar o Universo, eu pensava ficar consumida de Suas chamas. Foi então, que me fez conhecer as maravilhas de Seu Amor, e ordenou-Me que as contasse ao mundo”.

A Devoção ao Sagrado Coração de Jesus tem por fim a ação de graças por seus benefícios, e a reparação dos ultrajes que continuamente recebe, especialmente no Santíssimo Sacramento dos nossos Altares.

A Devoção ao Sagrado Coração de Jesus não é o privilégio exclusivo de algumas almas piedosas, Nosso Senhor recomendou que ela fosse publicada e propagado em todo o lugar. Não são todos os homens o objeto da Sua ternura? Não são todos inundados do Seu Sangue, e cheios dos Seus benefícios? Não tem ferido todos, este Coração adorável com seus pecados? O Coração de Jesus é o tesouro de todos os homens; por todos foi aberto sobre a Cruz, e todos, ainda os mais culpados, tem parte em Suas misericórdias, em Seu Amor. É pois um dever para todos pagar ao Coração de Jesus um tributo de amor, de ação de graças e reparação; é um direito que todos tem de procurar neste Coração Divino um asilo e uma consolação. Assim exultou a piedade dos cristãos quando o grande Pontífice Pio IX decretou que a Festa do Sagrado Coração fosse celebrada em toda a Igreja, e que fosse colocada de então por diante entre as principais Festas do ano.

Jesus Cristo tem presas ao Seu Coração pela cadeia do Seu Amor as gerações que O amarem.

Ó Coração aberto do meu Redentor! Ó bendita morada das almas presas do celeste amor! Ah! Não recuseis receber também minha alma!”



1Ad. Tanquerey, “Compêndio de Teologia Ascética e Mística”, 2ª Parte, Livro II, Cap. III, Art. III, § III, nn. 1252-1261, pp. 673-680; tradução do Rev. Pe. Dr. João Ferreira Fontes e autorizada pelo autor e editor, 5ª edição, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1955.
2Nesta breve exposição, sem insistirmos nas diferenças acessórias entre a devoção ensinada por S. João Eudes e a de Paray-le-Monial, tentamos conciliar o que há de comum nestas duas formas da mesma devoção.
3Jo. 7, 29.
4Jo. 8, 49.
5Le Coeur admirable, L. XII, ch. II.
6Ibid., ch. VIII. Aqui quase não fazemos outra coisa senão condensar o seu pensamento.
7Heb. 7, 25.
8Primeira das grandes revelações, 1673.
9Luc. 12, 49.
10I Rs. 16, 7.
11Ouevres complètes, Grenoble, 1901, VI, p. 124.
12Catéch. chrétien, Iº P., leç. I.
13Lettres, t. II, lettre 426.
14Esprit de M. Olier, t. I, 186-187, 193.
15Lettres inédites, IV, p. 142.
16Lettre CVIII, t. II, p. 227.
17Rev. Pe. Mário Corti, S.J., “Viver em Graça”, III Parte, Cap. XIV, I – Jesus Cristo, pp. 373-400; 2ª Edição, Edições Paulinas, São Paulo, 1961.
18Osserv. Roman., 1956.
19“Jesus nos Evangelhos”, por Dom Goodier, S.J.
20Santa Teresa, Vida, cap. 37.
21Virg. Ecl. 2.
22In Joan. Evang. Trad. 26, nn. 4-5; PL 35, 1608-1609.
23Oss. Rom., 30 de outubro de 1956.
24Col. 1, 12-20.
25Jo. 1, 16-17.
26I Jo. 4, 16.
27Leão XIII, Enc. “Annum Sacrum”.
28Pio XI, Enc. “Charitate Christi”.
29Pio XI, Enc. “Miserentissimus Redemptor”.
30Enc. “Haurietis Aquas”, de 15 de maio de 1956.
31Vie et oeuvres de S. M. M. Alacoque, Paris, 1920, vol. II, carta 141, p. 627.
32A Most Excellent Way – por Dom Goodier, S.J.
33Ibidem, Carta 89, p. 407 – Cartas 100 e 141, p. 438 e 628.
34Ossev. Rom., 31 de outubro de 1956.
35Encíclica “Miserentissimus Redemptor”, de 1928.
36S. Pio X, A.S.S., 1911, p. 345.
37Bento XV, 30-11-1919.
38Pio XI, setembro de 1927.
39Pio XII, 14-6-1944.
40Pio XII, 10-9-1948.
41Pio XII, 28-10-1951.
42“Manual das Missões e Devocionário Popular”, por um Padre da Missão, pp. 210-212; 1908.

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