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"Uma vez que, como todos os fiéis, são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, os leigos têm a OBRIGAÇÃO e o DIREITO, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente através deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito" (S.S. o Papa Pio XII, Discurso de 20 de fevereiro de 1946: citado por João Paulo II, CL 9; cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 900).

sexta-feira, 30 de março de 2012

Tertuliano e o Coquetismo exagerado das Mulheres de Cartago


Quintus Septimius Florens Tertullianus



A Moda Feminina


Se tanto a Fé na terra se conservasse quanto no Céu, sua mercê nos espera, nem uma só dentre vós – ó diletíssimas irmãs –, logo que houvesse conhecimento do Deus vivo e tomasse cons­ciência da sua condição de mulher, voltaria a apetecer as roupas de mais formosura, para não dizer de mais vaidade. Antes, viveria vestida de andrajos; antes, ambicionaria trajar-se de luto, apresen­tando-se como chorosa e arrependida Eva, a fim de melhor expiar no seu modo de vestir, o que de Eva recebeu: a vergonha do Primeiro Pecado e a desgraça da perdição humana.

Ó mulher, nas dores e ansiedades dás à luz, vives girando em volta do teu marido, és domi­nada por ele, e não sabes que, afinal, Eva és tu mesma? Ainda vive em nossos tempos a sentença de Deus a respeito do teu sexo: necessário é que vivas na condição de culpada. És a porta do Diabo, aquela que tocou a árvore proibida. És quem primeiro fugiu à Lei divina, quem persuadiu aquele que o Diabo não conseguira agredir. És quem tão facilmente despedaçou a Imagem de Deus, que o ho­mem era. Por teu merecimento – a morte – o próprio Filho de Deus teve de morrer. E o que trazes no pensamento é cobrires de jóias os teus vestidos de pele?

Mais ainda: se desde o princípio do Mundo tosquiaram os habitantes de Mileto suas ove­lhas, teceram os Seres o fio das árvores, tingiram os habitantes de Tiro os tecidos, fizeram bordados os Frígios e recamaram estofos os Babilônios; se refulgiram de brancura as pérolas e flamejaram as pedras ceráunias; se o mesmo ouro saiu do ventre da terra já seguido da cobiça; se tanto ao espelho foi dado mentir; e se todas estas coisas à Eva apeteceram, cuido eu ter sido já morta, expulsa do Pa­raíso. Portanto, também hoje, se Eva deseja regressar à vida, não pode apetecer nem conhecer o que não possuiu nem conheceu quando estava viva. Todas essas coisas não passam de bagagens da mulher condenada e morta, diríamos que constituídas para as pompas do seu funeral.

... Mas, para que pus eu tanto empenho em mostrar e em relatar coisas tais? Acaso as mu­lheres não conseguem agradar aos homens sem as matérias do luxo e sem as artes do enfeite...?

A moda feminina envolve dupla espécie: os adereços e o enfeite. Chamamos adereços às alfaias da mulher, enfeite ao que se pode dizer a sua impuridade. Os primeiros consistem no ouro, na prata, nas jóias e nas peças de vestir; o segundo consiste no trato do cabelo, da pele e daquelas par­tes do corpo que atraem os olhares. Àqueles atribuímos o crime da ambição, a este o da prostituição, para que desde agora antevejas – ó serva de Deus – o que de tais coisas convenha ao teu modo de vida, tu que te consideras assente em outros princípios, que são o da humildade e o da castidade.

O ouro e a prata, principais matérias da ostentação mundana, serão necessariamente aquilo de onde vêm, ou seja terra, a qual é com toda a evidência bem mais gloriosa porque, lavada nas lá­grimas pelo trabalho dos condenados nas oficinas funestas dos malditos metais, perde no fogo o nome de terra, para a partir daí se transmudar de tormentos em ornamentos, de suplícios em delici­as, de ignomínias em honrarias...

... Mas, em seguida à distribuição das riquezas que Deus ordenou como bem entendeu, a raridade e o exotismo, os quais sempre encontram o agrado dos estrangeiros pela simples razão de não possuírem o que Deus colocou noutro lugar, despertam a concupiscência da posse.

Da concupiscência gera-se um outro vício: o desejo de possuir sem medida. É que, embora seja necessário possuir, uma medida se impõe, no entanto. Chama-se ambição a este vício, nome que há de interpretar-se pelo fato de nascer da concupiscência, a qual se faz ambiente da alma para o desejo da vanglória, esse crescido desejo que, já o dissemos, é oferta não da Natureza nem da verdade, mas da perversa paixão do espírito, a concupiscência. Altos vícios são, na realidade, a am­bição e a vanglória e foi assim que a concupiscência inflamou o preço de tais coisas para a si mesma se atear. Pois, tanto maior se torna a concupiscência quanto mais valor dá àquilo que cobiça. De mi­núsculos cofres retiram-se largos haveres; num só fio mete-se um milhão de sestércios; enroladas num frágil pescoço trazem-se herdades e casas de renda; delicados lóbulos de orelha consomem um inteiro livro de contas e a mão esquerda brinca com uma bolsa em cada um dos cinco dedos. Tama­nhas são as forças da ambição para um pequenino corpo de mulher carregar sozinho com o peso de tantos lucros!

Os Adereços da Mulher


A salvação, tanto para as mulheres como para os homens, tem por condição primeira a prá­tica da castidade. Sendo todos nós o templo de Deus, depois de em nós introduzido e consagrado o Espírito Santo, a castidade é a guardiã e a superiora desse templo, a qual não permitirá que nada de impuro e de profano se introduza, não vá Deus que nele tem morada abandonar ofendido a sua habi­tação maculada.

Não vamos, porém, falar da castidade, a cuja determinação e exigência bastam os instantes e universais Preceitos divinos. Falaremos, sim, de coisas que a ela dizem respeito,  ou seja, o modo como vos convém que procedais. A maior parte das mulheres – Deus me consinta repreender-vos neste ponto, ainda que eu próprio em tudo seja repreensível – comporta-se, ou por simples ignorân­cia ou por descarado fingimento, como se a castidade apenas consistisse na integridade de corpo e na aversão ao pecado sexual, sem que nada de exterior fosse preciso, quero dizer, sem regras res­peitantes ao modo de adornar-se e aos cuidados de beleza. Persistem, ao invés, nas antigas preocu­pações de beleza e de elegância, ostentando as mesmas aparências que as damas pagãs, às quais falece a consciência da verdadeira castidade, porque nenhuma verdade se encontra em quantos ig­noram Deus, Senhor e Mestre da verdade. Mesmo que entre os pagãos se acredite numa certa casti­dade, ela mostra-se tão imperfeita e confusa, apesar de algumas vezes agir tenazmente no espírito, que logo se dilui na licenciosidade da moda, com fundamento na verdade pagã de buscar uma com­pensação para aquele efeito cuja realidade ela evita. Em suma, quantas serão as que não desejem agradar a outrem, que não queiram para o mesmo fim pintar-se só para recusarem os desejos, ainda que seja vulgar à castidade pagã não fazer o mal apesar de o apetecer ou, até, de o não querer ape­sar de o não recusar? Que há nisto de admirar? Tudo o que não provém de Deus é perversão. Olhem-se aquelas que, não conseguindo o bem total, misturam desenvoltamente com a maldade o bem que conseguem! Necessário é que vos distingais delas pelo vosso procedimento como pelo res­to, porque haveis de ser perfeitas como o é vosso Pai que está nos Céus.

Sabeis que o querer da castidade perfeita – a castidade cristã – é não somente não serdes desejadas, como serdes aborrecidas. E a principal razão é que de uma consciência ín­tegra não vem a preocupação de agradar por meio da elegância, a qual sabemos que um natu­ral convite às paixões. Por que haverás, pois, de acordar em ti semelhante mal? Por que atrais a ti aquilo a que te confessas estranha? Além do mais, não devemos abrir caminho às tenta­ções que – Deus as guarde longe dos seus! - algumas vezes teimosamente realizam os seus intentos ou, pelo menos, perturbam a alma com o escândalo. Devemos caminhar tão santa­mente e tão na integridade da Fé que nos mantenhamos confiantes e seguros sobre a nossa consciência e assim prefiramos conservar-nos, embora sem presunção. De fato, quem presu­me menos se arreceia, quem menos se arreceia menos se precavem, quem menos se preca­vem mais perigo corre. O temor é o fundamento da salvação, a presunção o impedimento do temor. Mais vantajoso é esperar que podemos cair do que presumir não poder. Esperar é rece­ar, recear é precaver-se, precaver-se é salvar-se. Ao contrário, se presumimos, sem temor nem precaução, dificilmente nos salvaremos. Quem age seguro de si e não preocupado não é possuidor de uma inteira e firme segurança. Ao invés, quem se preocupa, esse pode estar ver­dadeiramente seguro.  

Aceitemos que, na Sua misericórdia, Deus vele pelos Seus servos e até os deixe presumir sem maus resultados sobre aquilo que têm de bom. Por que havemos de ser, porém, um perigo para outrem? Por que havemos de suscitar a outrem a concupiscência? Se o Senhor, alargando a Lei, não distingue no castigo a concupiscência do ato de pecado sexual, não sei se ficará impune quem for para outrem causa de perdição. De fato, quem desejou a tua beleza e aceitou em pensamento o que desejou, logo se perde. De tal modo, te tornaste para ele uma espada que, mesmo ficando ino­cente, não estás livre da indignidade. Acontece o mesmo quando é feito um assalto à mão armada em determinado campo. O crime não se inculpa ao proprietário da terra, mas enquanto a sua herda­de for marcada pelo fato desonroso, também ele será atingido pela infâmia.

Vá, pois, de pintar-nos para perdição dos outros! Onde está, então, o “ama a teu próximo como a ti mesmo”, ou o “não procureis o vosso interesse, mas o dos outros”? Todas as pala­vras do Espírito Santo podem ser dirigidas e tomadas não só quanto ao seu objeto imediato, como também em relação a todas as ocasiões em que sejam úteis. Uma vez que na preocupação dos tão perigosos atrativos estão em causa a nossa sorte e a sorte dos outros, sabei que deveis não só recu­sar os artifícios de uma beleza fingida e esmerada, como também esquecer a vossa natural graciosi­dade, encobrindo-a e descuidando-a como igualmente nociva à incursão dos olhares.

De fato, embora não se deva acusar a beleza – a qual é a graça do corpo, o acabamento da modelação divina, um agradável vestimento da alma –, ela haverá, no entanto, de ser temida, nem que seja por causa dos ultrajes e das violências daqueles que andam atrás dela. O próprio Abraão temeu-se de tais violências, dada a beleza da sua esposa, e, fazendo passar Sara por sua irmã, con­seguiu salvar a vida a preço de uma afronta.

Suponhamos agora que a beleza do aspecto não é coisa de ser temida, por não ser nem um peso para as que a possuem, nem causa de ruína para os que a cobiçam, nem um perigo para os cônjuges. Não a consideremos nem exposta às tentações, nem cercada pelos escândalos. É bastan­te não ser necessária aos Anjos de Deus. Onde estiver a castidade, inútil a beleza. É que, propria­mente, a prática e o fruto da beleza são a luxúria, a não ser que alguém considere que da beleza do corpo são outra colheita que possa fazer-se! Deixem o trabalho de aumentar, se a têm, a formosura, ou de forjá-la se a não têm, àquelas que julgam ceder às exigências da formosura também por causa de si mesmas, quando o fazem por outrem.  

“Pois quê? - dirá alguém – Se repelirmos a luxúria e abraçamos a castidade, não há de ser permitido gozar o simples louvamento de ser bela e agradarmo-nos das vantagens do corpo?” Glorie-se quem quiser da beleza carnal. Em nós, porém, não existe lugar para quaisquer preocupações de vaidade, que a vaidade é um sinal de soberba. Ora, a soberba, segundo a vontade de Deus, não convém aos que professam a humildade. Além do mais, se toda a vaidade é vã e emparvoece, quan­to mais a vaidade da carne, ao menos para nós! E, ainda que tenhamos de gloriar-nos, que o seja por agradarmos nas coisas do espírito e não nas coisas da carne, porque é das coisas do espírito que nós somos seguidores.

Naquilo em que nos ocupamos, nisso nos alegremos; daquilo de onde esperamos a salva­ção, disso tiremos glória. Sem dúvida, o cristão será glorificado na carne, mas só quando, dilacerada pela causa de Cristo, perseverar a fim de que nela o espírito seja coroado, em vez de atrás de si ar­rastar os olhos e os suspiros dos adolescentes.

Assim, a essa beleza que sob todos os aspectos vos é supérflua, com razão a aborrecereis se a não tiverdes e a descuidareis se a tiverdes. Guarde uma santa mulher o seu encanto natural, mas que o não seja para ocasião de queda. E, se acontece que o vem a ser, não o há de ignorar, mas, prevenir-se.

Como se falasse a mulheres gentias, lembrar-vos-ei uma regra pagã, mas que a to­das vós se aplica: só aos vossos maridos deveis agradar. Ora, vós agradar-lhe-eis na medida em que não cuidardes de agradar aos outros. Estai sossegadas, ó mulheres benditas, que aos olhos do seu marido não há esposa sem beleza: ela agradou bastante quando o marido foi levado a escolhê-la, fosse pelo caráter, fosse pela beleza. Nenhuma de vós vá pensar que, moderando os ar­ranjos da sua pessoa, o marido acabe por detestá-la ou afastar-se dela. Todo marido exige o tribu­to da castidade: se é cristão, não está à espera da beleza, porque nós não somos seduzidos por aquelas mesmas coisas que os pagãos consideram vantagem; se, ao contrário, o marido é pagão, até irá tomar como suspeita essa beleza, nem que seja pela opinião de delinquentes que eles fazem acerca de nós. Para que andas, então, a cuidar da tua beleza? Se é para um marido cris­tão, ele não a requer; se é para um gentio, ele tem desconfiança. Por que hás de por tanto es­mero em agradar a quem de tal coisa suspeita ou a quem a não deseja?

Estes pensamento vos são sugeridos, evidentemente, não para vos convencer a adotar um aspecto de total grosseria e de animal selvagem, nem para vos persuadir do valor da sordidez e dos andrajos, mas apenas da medida, limite e justeza que há de haver no cuidado do corpo. Não deveis ir além de um modo simples e bastante de embelezar-vos. Mais do que isso, agradai a Deus.

Pecam, de fato, contra Deus, as mulheres que sobrecarregam de cremes a pele, que sujam as faces de vermelho, que alongam os olhos com tinta preta. Decerto lhes desagrada o que Deus moldou; em si mesmas recriminam e criticam o Artista de todas as coisas. Criticam quando corrigem, quando acrescentam, mormente aceitando esses acessórios vindos do ar­tista inimigo, que é o Diabo. Realmente, quem incitaria a modificar o corpo senão aquele que transfigurou com a maldade o próprio espírito humano? Foi ele, sem dúvida, quem maquinou tais artimanhas para que em nós, de algum modo, pudesse levantar a mão contra Deus.

O que vem da Natureza é obra de Deus. Portanto, o que é fingido será negócio do Diabo. Ó, sacrilégio, ajuntar à obra divina as invenções de Satanás! Os nossos servos não aceitam nada que venha de quem nos hostiliza; os soldados nada querem do inimigo do seu comandante. De fato, soli­citar alguma coisa para teu uso, ao adversário daquele em cuja mão estás, é traição. Vai um cristão receber ajuda do malvado? Não sei se tal nome de cristão lhe caberá por mais tempo, pois, tornar-se-á pertença daquele em cujas doutrinas deseja ser instruído. Que contradição com os vossos prin­cípios de moral e as vossas promessas de fé, que indignidade para um nome cristão, passear uma cara artificial aquele que é convidado a uma total simplicidade, mentir com a aparência aquele que não pode mentir com a língua, apetecer o que não recebeu aquele que aprende a abster-se do bem alheio, cometer adultério em aparências aquele que tem a obrigação da castidade! Acreditai-me, benditas mulheres, como haveis de guardar os Preceitos de Deus, se em vós não guardais os seus divinos traços?

Vejo algumas de vós que pintam os cabelos com açafrão. Chegam a envergonhar-se da sua pátria, de não terem nascido na Germânia ou na Gália. Trocam, assim, a pátria pela cabeleira. Coisa ruim, coisa péssima a si mesma pressagiam com a sua cabeça da cor do fogo! E consideram elas embelezar o que degradam! Ora, a força das drogas causa prejuízo aos cabelos, além de que o uso frequente de um líquido qualquer, mesmo que puro, traz consigo a ruína do cérebro, da mesma for­ma que o ardor do sol, necessário para avivar e ao mesmo tempo secar a cabeleira. Que tem a ver o decoro com o agravo? E a beleza com as imundícies? Derramará a mulher cristã o açafrão sobre a própria cabeça como sobre um altar? Realmente, tudo o que se costuma queimar ao espírito imundo – a não ser que seja empregue para os usos retos, indispensáveis e benéficos a que são destinadas as coisas que Deus criou – pode parecer uma oferta sacrifical.

Enquanto o Senhor afirma: “Quem de entre vós pode tornar preto o cabelo branco ou bran­co o cabelo preto?”, eis que elas refutam a Deus. “Vê-de – dizem –, em vez de brancos ou pretos, tornamos loiros os cabelos, o que favorece mais a graciosidade”. E vemos ainda esforçarem-se por tornar pretos os cabelos brancos outras que lamentam ter vivido até à velhice. Oh, temeridade! En­vergonhar-se de si a idade que tanto se desejou: é um roubo que se comete. Suspira-se pelo tempo da juventude em que pecamos. Estraga-se o tempo favorável da idade provecta. Longe das filhas da sabedoria uma tamanha estupidez! Quanto mais a velhice procurar esconder-se, mais se trairá.

Vem, então, a vossa eternidade da juventude da vossa cabeça? É, então, oferecida pela acácia a incorruptibilidade com que havemos de revestir-nos para entrar na Mansão do Senhor! Es­tais, realmente, a correr a passos largos ao encontro do Senhor! Estais, realmente, com pressa de sair deste mundo de tanta iniquidade, vós para quem é horrível ver chegar-se o fim!

De que serve para a vossa salvação todo esse afã no ornamento da vossa cabeça? Por que não deixais em paz os vossos cabelos, ora apanhados, ora soltos, ora levantados, ora caídos? Umas desejam apaixonadamente prendê-los em caracóis; outras querem-nos soltar, livres e esvoaçantes, numa falsa simplicidade. Juntais, ao depois, nem sei que enormidades de perucas, cosidas e entrela­çadas, seja para servir de barrete à maneira de um estojo para a cabeça com uma tampa no cocuru­to, seja usado em carrapicho a cobrir a nuca. Espantoso que não esteja contra os Mandamentos do Senhor! Foi dito que ninguém podia acrescentar nada ao seu tamanho. Vós, muito sabiamente, acrescentais o vosso peso, juntando às vossas nucas ornatos que fazem lembrar bolos de filhós ou os botões dos arneses. Se não tem vergonha da enormidade, tenham ao menos vergonha da imun­dície, por forma a não adaptar a uma cabeça santa e cristã os despojos de uma cabeça estranha, tal­vez impura, talvez criminosa e votada ao Inferno. Atirai, pois, para longe de uma cabeça que é livre toda essa escravidão de ornamentos! Inutilmente vos esforçais por parecer embelezadas, inutilmente recorreis aos mais famosos cabeleireiros. Deus manda-vos cobrir com um véu, penso que para não serem vistas as cabeças de certas mulheres.

Queira Deus que eu, assim tão mísero como sou, no Dia do Triunfo Cristão possa erguer a cabeça ao menos, à altura dos vossos calcanhares! Hei de ver se vós ressuscitareis com o alvaiade, a púrpura e o açafrão e esse enfatuado envoltório na cabeça; hei de ver se é de tal modo pintadas que os Anjos vos levarão em nuvens ao encontro de Cristo nas alturas. Se essas coisas são hoje bem recebidas de Deus, também naquele dia elas acorrerão aos corpos ressuscitados e garantirão o seu lugar. Mas, nada mais pode ressuscitar além da carne e do espírito, só e puro. Está, pois, conde­nado o que não ressurge na carne e no espírito, porque não vem de Deus. Afastai-vos desde hoje das coisas condenadas; que desde hoje, Deus vos olhe como, então, vos há de olhar!

Pelos vistos, o que eu estou a querer é desapossar as mulheres, como homem e rival no sexo, das suas vantagens! Mas, por ventura, não nos são impostas também a nós certas obrigações em relação à gravidade, pelo temor a Deus devido? A verdade é que, nos homens por culpa das mu­lheres e nas mulheres por culpa dos homens, gerou-se por falha da Natureza o desejo de agradar, e também o meu sexo conhece os seus próprios artifícios de beleza: cortar a barba perfeitamente em ponta, depilar aqui e além, rapar em volta, arranjar o cabelo e pintá-lo mesmo, arrancar as primeiras brancas que nasçam, limpar as zonas pilosas de todo o corpo com o mesmo depilatório que as mu­lheres usam, amaciar as restantes partes com um pó abrasivo, depois consultar o espelho a todo o momento, mirar ansiosamente. E, afinal, quando se conhece Deus, suprimido o desejo de agra­dar, com a ausência da sensualidade, tudo isso é recusado como ociosas coisas, hostis à castidade. Onde está Deus, aí está a castidade e a circunspecção, sua auxiliar e companheira. Como havemos, pois, de praticar a castidade sem a circunspecção que é o seu instrumento? E como havemos de aplicar a circunspecção ao serviço da castidade se a severidade não en­volver o rosto, as vestes e a imagem de toda a nossa pessoa?

É por isso que, também no referente ao vestuário e à restante bagagem dos vossos enfei­tes, deveis ter o cuidado de cortar e atirar para longe, toda a elegância supérflua. De que serve, de fato, mostrar um rosto de virtude, escorreito e conforme com a simplicidade dos princípios di­vinos, e carregar o resto do corpo com as complicadas frivolidades do fausto e das delícias? É fácil discernir como faz este fausto o jogo da luxúria e como ele se opõe às regras da casti­dade, porque prostitui o encanto da beleza com o acréscimo dos adornos, de tal modo que, se ele falta, torna-se apagada a beleza e sem atrativo, como que desmantelada e à deriva. Ao in­vés, se o que falta é a beleza, o esteio da elegância supre, como por virtude própria, a gracio­sidade. Enfim, o esplendor e a fascinação dos enfeites desnorteiam as idades que estão já no repouso, já entradas no porto da modéstia, e desassossegam com desenfreados desejos a se­veridade, decerto para compensar a algidez da idade com as excitações da moda. Em conclu­são, benditas mulheres, antes de mais nada não queirais admitir em vós, como devassos e prostituidores, os vestidos e os ornamento; depois, se acontece a algumas de vós que a razão das suas riquezas ou do seu nascimento ou de anteriores dignidades obrigue a andar em tan­to fausto, ao menos tenham toda a cautela, como discípulas da sabedoria, em usar de mode­ração neste campo, para que, a pretexto de tal ser necessário, não venham a entregar-se a um desregramento sem freio. De fato, como haveis de ser fiéis à humildade que nós, cristãos, professamos, se não reformardes o uso das vossas riquezas e dos vossos luxos, que tanto contribuem para a vanglória? A vanglória costuma levar ao orgulho, não à humildade.

Mas perguntareis: “Não podemos nós usar o que nos pertence? Quem no-lo proíbe?” Siga­mos, no entanto, o Apóstolo que nos avisa a usarmos deste mundo sem cairmos em abuso. “O as­pecto deste mundo – diz ele – é coisa que passa”.Aqueles que compram – continua – façam-no como se nada possuíssem”. Por que assim? Porque já antes afirmara: “O tempo é apertado”. Se, pois, o Apóstolo expõe que até as próprias esposas devem ser tidas como se não se tivessem, por causa da brevidade do tempo, que dizer dos seus fúteis ornamentos? Não há, de fato, muitos que assim fazem e dão a si mesmos a condição de eunucos, por causa do Reino de Deus, espontanea­mente renunciando a uma vontade tão forte e absolutamente física? Alguns proíbem a si mesmos o que é criatura de Deus, abstendo-se de vinho e de animais comestíveis, cujo proveito nenhum perigo ou agitação traz consigo. Cortando, porém, na própria alimentação, oferecem em sacrifício a Deus a humildade da sua alma. Já vos bastou, portanto, o gozo das riquezas e das delícias, já retirastes bastante proveito dos vossos dotes antes de conhecerdes as verdades da salvação.

Nós estamos no momento em que chegaram ao fim os limites dos séculos; destinados por Deus antes da criação do mundo para o extremo final dos tempos, somos instruídos pelo Senhor como que para castigar e, ouso dizer, para castrar o mundo. Nós somos inteiramente circuncidados, tanto no espírito como na carne, porque no espírito e na carne fazemos a circuncisão dos bens mun­danos.

... Mas vamos supor que Deus teria preparado de antemão estas coisas, e as haja con­sentido; suponhamos que Isaías (3, 18-19) não faz increpações contra as vestimentas de púr­pura, nem reprova os crescentes de ouro, nem zurze nos cachos postiços das cabeleiras. Não chegaria a ser razão para nos deixarmos embalar como os pagãos, pensando que Deus foi apenas o Criador e não, também, Aquele que regula do alto as obras da Sua criação. Quanto melhor e mais cautamente não agiríamos se antes julgássemos ter Deus um dia providencia­do e posto no mundo todas as coisas para que hoje servissem de prova ao comportamento dos Seus servos e para que, pela licença de as usar, fosse levada a bom êxito a experiência da temperança! Não vemos nós os avisados chefes de família porem deliberadamente à vista e à disposição dos seus criados certas coisas para os experimentar sobre se, e como usam eles do que é permitido, se honestamente e com moderação? Quanto mais digno de louvor quem se abstiver totalmente, quem temer a própria bondade do seu senhor! Assim, afirma o Apóstolo: “Tudo é permitido, mas nem tudo convém”(1 Cor. 10, 23). Quanto mais facilmente temerá as coisas proibidas quem se arrecear das permitidas!

Aliás, que razões tendes vós para andardes assim tão ajaezadas, quando vos encontrais afastadas do que exige um tal aparato? Vós nem visitais os templos, nem procurais os espetáculos, nem aceitais os dias de festa pagãos. É, de fato, por causa de tais reuniões e para ao mesmo tempo verem e serem vistas que são promovidas todas essas pompas públicas, seja para negócio da luxú­ria, seja para enfatuamento da vaidade. Mas, para vós, não há nenhuma causa de sairdes à rua que não seja severa: ou se vai visitar um irmão enfermo, ou se vai oferecer o Sacrifício, ou se vai receber a Palavra de Deus. Qualquer destas causas é empresa de circunspecção e de santidade, que não precisa – como se algo o precisasse! - de um modo de vestir excepcional, rebuscado e imoderado. Se vos obriga a força das amizades e dos deveres em relação aos gentios, por que não saís de casa vestidas com as vossas armas, sobretudo, se ides visitar mulheres que estão fora da Fé, para que haja uma diferença entre as servas do Diabo e as servas de Deus, para que sejais um exemplo para elas, para que em vós encontrem motivo de edificação, para que – como diz o Apóstolo – Deus seja glorificado no vosso corpo? Ora, Deus será glorificado no corpo pela castidade, evidentemente, e pelo modo de apresentar-se que à castidade convém.

Alguns dizem, no entanto: “Não será blasfemado em nós o nome cristão se retomarmos al­guma coisa da nossa antiga maneira de vestir e dos nossos enfeites”. Nesse caso, não nos despoje­mos também dos antigos vícios; conservemo-nos com os mesmos costumes e sob as mesmas apa­rências: então será verdade que os gentios não blasfemarão. Ó, grande blasfêmia se de alguma de vós alguém disser: “Desde que se fez cristã, a sua apresentação é mais pobre”! Terás medo de apa­recer mais pobre por te haveres tornado mais pura? Os cristãos devem comportar-se segundo o agrado dos pagãos ou segundo o agrado de Deus?

Desejemos tão somente não ser uma justa causa de blasfêmia. Quão mais justa causa de blasfemarem sereis vós, porém, se – intituladas sacerdotisas da castidade – vos apresen­tais no ritual das meretrizes, como elas adornadas e pintadas! Que têm de menos essas infor­tunadas vítimas dos prazeres públicos? Se havia leis que as mantinham segregadas das da­mas da sociedade e das vestimentas próprias destas senhoras, a corrupção do mundo, que aumenta de dia para dia, já as igualou às mais honestas damas, a ponto de haver engano ao distingui-las. Aliás, as próprias Escrituras apresentam os artifícios de beleza sempre ligados e reservados à prostituição do corpo. Se a cidade poderosa, entronizada no alto das sete coli­nas e sobre as incontáveis águas (Apoc. 17, 1), mereceu da parte do Senhor o nome de prosti­tuta, qual foi o ornamento que lhe valeu este nome? Está, com certeza, sentada na púrpura, no escarlate, no ouro e nas pedras preciosas (Apoc. 17, 4). Ó, malditos enfeites sem os quais ela não poderia ser descrita como maldita e prostituta! A famosa Tamar, porque se pintara e ador­nara, por isso mesmo apareceu aos olhos de Judá fazer profissão de meretriz. Escondida sob o véu, pelo tipo das suas vestes fingindo-se prostituta, foi como tal que ele a desejou, lhe diri­giu a palavra e fez o acordo (Gên. 38, 14-16). Do fato, tiramos lição de que por todas as manei­ra nos havemos de precaver em relação aos encontros e mesmo às suspeitas impudicas. Por que se há de macular a pureza de um coração casto na suspeição que outrem faz? Por que se há de esperar de mim aquilo a que tenho aversão? Por que não há de o porte exterior anunciar os meus costumes, a fim de que a alma não seja ferida pela impudência através dos ouvidos? Tenha a mulher pudica o direito de parecer o que é, já que o tem a impudica.   

Talvez haja alguma de vós que diga: “Não preciso da apreciação dos homens, nem procuro uma testemunha humana. Deus vê o que vai no coração (1 Rs. 16, 7)”. Todos o sabe­mos, mas apesar disso recordemos o que o mesmo Deus disse por meio do Apóstolo: “Que a vossa virtude apareça diante dos homens  (Fil. 4, 5)“. E que outro fim senão para que a malda­de não tenha qualquer entrada em vós e para que sirvais aos maus de exemplo e testemunho? Ou que significa: “Que as vossas obras brilhem”? Ou por que nos chamou o Senhor a luz da terra (S. Mat 5, 14-16)? Por que nos comparou a uma cidade construída no alto de um monte (S. Mc. 4, 20; S. Lc. 8, 16; 11, 33), se nós não brilharmos no meio dos homens em trevas e não nos elevarmos acima dos que submergem? Se esconderes a tua lanterna debaixo do alqueire, é inevitável que, abandonada nas trevas, sofras o assalto de muitos. O que faz de nós os luzeiros do mundo é o bem que em nós está. Mas o bem, desde que seja verda­deiro e total, não ama as trevas; antes, alegra-se de ser visto e exulta quando é aponta­do com o dedo.

À castidade cristã não basta apenas ser, mas também parecer. A sua plenitude haverá de ser tal que transborde da alma para o aspecto exterior e brote da consciência para a super­fície, de modo que se veja exteriormente apetrechada, como convém à preservação da Fé para sempre. Sejam, de fato, arredadas as delícias cuja moleza e flacidez podem efeminar o vigor da Fé. De resto, não sei se a mão que anda habitualmente envolvida num bracelete conseguirá su­portar o entorpecimento na dureza de uma algema; não sei se a perna que se enfeita com argola so­frerá o aperto dos ferros; temo que a nuca coberta com entrelaçados de pérolas e de esmeraldas não dê lugar à espada.

Por esta razão, ó benditas mulheres, exercitemo-nos nas coisas mais duras e não as sentiremos; deixemos as coisas mais agradáveis e não as desejaremos; estejamos prepara­dos para toda a violência, nada possuindo que tenhamos medo de abandonar. Essas coisas são entraves à nossa esperança. Lancemos fora os ornatos da terra, se escolhemos os do Céu. Não tenhais amor ao ouro, no qual se denotaram os primeiros pecados do Povo de Israel (Êx. 32, 7ss; Jos. 7, 10-26). Deveis ter aversão ao que perdeu os Judeus, ao que eles adoraram abandonando em troca a Deus (Êx. 32, 20). Já nessa altura o ouro foi pasto do fogo. De resto, é sob o sinal do ferro e não do ouro que sempre, e hoje especialmente, decorre a existência dos cristãos. Preparem-se as túnicas dos Mártires, os Anjos portadores são esperados. É tem­po de caminhardes com os perfumes e as vestes dos Profetas e dos Apóstolos, recolhendo da simplicidade a alvura e da castidade o rubor, pintando os olhos com o recato e os lábios com o silêncio, enfeitando as orelhas com a Palavra de Deus, prendendo ao pescoço o jugo de Cristo. Curvai submissas a cabeça diante dos vossos maridos e estareis suficientemente em­belezadas; ocupai as mãos em fiar a lã, fixai os pés dentro de casa e haveis de agradar mais do que o ouro. Vesti-vos com a seda da honestidade, com o linho da santidade, com a púrpura da castidade. Desse modo ataviadas, tereis Deus por amante.

(Tertuliano, “A Moda Feminina”, A.D. 202,
Traduzido do Latim a partir da versão original
 por Fernando Melro,
Coleção “Origens do Cristianismo”, n. 3.
Copyright by Éditions du Cerf e Editorial Verbo,
Lisboa – São Paulo,
1974). 

Conclusão


"Talvez nunca, na história da Humanidade, pesasse sobre o mundo uma crise tão univer­sal e avassaladora. Já não é um recanto isolado da terra, uma classe determinada de homens, uma nação apenas que sente essa espécie de angústia e de insegurança. Os tentáculos dessa hidra terrível vão asfixiando todos os homens. A doce euritmia, a despreocupação tão feliz dos séculos passados di­luiu-se como névoa ao sol da realidade desconcertante.

Os homens são agora as vítimas agitadas de estranha preocupação. Não estão apenas in­quietos, mas ainda premidos por um pavor universal. E isto significa, sem dúvida, a tortura de mar­cante insegurança. Não há um ponto firme de apoio nessa transmutação histórica.

Sente o homem que tudo aquilo em que se firmara desde os últimos séculos está vaci­lando e desmantelando-se aos embates das agitações dos tempos atuais. As dinastias do ouro, as dinastias do trabalho, vão se sucedendo na marcha da civilização. E nessa caminhada da civi­lização que hoje parece tocar a sua culminância, não tardou que o espírito eufórico do cientificis­mo e a serenidade edênica do paraíso burguês cedessem lugar à incerteza martirizante dessa in­segurança que não é apenas o traço psicológico de alguns espíritos ou de algumas nações. É um fenômeno universal.

Mesmo antes da 2ª grande Guerra, o Eminentíssimo Cardeal Verdier, Arcebispo de Pa­ris, es­crevia: 'O mundo moderno está passando por uma crise cuja gravidade não é fácil exage­rar. E mui­tos têm dito que chegamos a um tal ponto do caminho, que prosseguir seria certamen­te cair no abis­mo. Todas as nossas instituições, de fato, de qualquer ordem que sejam, estão atualmente não só no es­tado de imperfeição comum há todos os tempos e a todas as coisas, mas num estado de crise or­gânica profunda, e que poderia facilmente ser mortal. O mal estar, a in­quietude, a incerteza do futuro, uma espécie de ódio contra tudo o que existe, é o estado de âni­mo que se encontra em toda parte. E coisa rara! Esta crise caiu sobre o mundo ao mesmo tempo em que a prosperidade parecia não ter li­mites, e quando o progresso acreditava ter transformado as condições da vida humana'(Cardeal Ver­dier, "L'Eglise devant le monde moderne, La Crisis de la Conscience", pp. 7-8).

"Dificilmente depois do Dilúvio, escreve Pio XI, na página talvez mais sombria que já se con­cebeu sobre o mundo moderno, encontramos uma crise espiritual e material tão profunda, tão univer­sal, como esta que agora atravessamos: os maiores flagelos, mesmo aqueles cujos rastos ficaram in­deléveis na vida e na memória dos povos, abatiam-se ora sobre uma nação, ora sobre outra. Agora, ao contrário, é toda a Humanidade que se vê atingida pela crise financeira e econômica e de modo tão tenaz, que quanto mais procura libertar-se mais parecem os seus la­ços impossíveis de romper'(Pio XI, Carta Encíclica "Charitate Christi compulsi", de 3 de Maio de 1932).

E depois que a Guerra feriu novamente as nações, nós mesmo escrevíamos ainda há pouco: 'a hecatombe caiu dolorosamente sobre todo o mundo civilizado, e já não há país desse globo imenso em que os homens não vivam temerosos e angustiados. Em que a chamada ques­tão social não le­vante sérias interrogações. Em que não fraquejem as autoridades nas conces­sões criminosas; em que não se aperceba a fermentação da revolta; em que não se note a au­sência da columba da paz, como outrora sobre os destroços do Dilúvio'(Capital e Trabalho, 2ª Edição, Introd.).

Donde procede, pois, a crise contemporânea? Se é um fenômeno universal, a sua causa deve ter um fundamento universal. Aliás, é por esse característico de universalidade que podere­mos surpreender a causa última deste momento agudo da civilização. Um velho e profundo axio­ma filosó­fico nos faz tocar o ponto obscuro da grande tragédia. A universalidade de um fenôme­no confirma a sua origem na própria natureza das coisas: 'quod universaliter fit ultimo in natura radicatur'. Tudo aquilo que acontece universalmente funda-se na própria natureza que é uma confirmação. A crise, porém, é um fenômeno de negação. O desequilíbrio uni­versal é a negação da própria natureza.

Pois só uma tal negação poderia ter repercussão tão ampla, abrangendo toda a vida das na­ções, das sociedades e dos próprios indivíduos. Nenhuma outra causa seria bastante para responder por essa universalidade, porque seria sempre uma parcela cuja projeção não teria se­não amplitude parcial e jamais alcançaria uma extensão universal. A causa política, a causa econômica, as circuns­tâncias sociais, poderiam, certamente, desbordar em consequências que acarretassem desequilíbrio, mas esse mal estar estaria em proporção ao campo de sua influência no mundo.

A razão profunda da crise atual está, pois, a nosso ver, na negação de uma natureza tão es­sencial que se faz o ponto de referência de todas as relações que entram na composição do mundo civilizado.

As ciências sociais, econômicas, políticas, filosóficas, são as expressões de ralação des­sa natureza para com todas as outras realidades do universo. Porque só a sua negação poderia ser a gênese de crise tão vasta, capaz de tudo submeter à sua influência.

Ela atingiu ao indivíduo, porque destruiu a soberania da personalidade; atingiu a família, por­que a transformou numa convergência ocasional de instintos; atingiu a sociedade, porque aviltou o conceito sublime da autoridade, processando a sua hipertrofia ou a sua anulação; atin­giu a própria or­dem internacional, porque transformou o direito das gentes em simples método de auferir vantagens, ou em imposição de caprichos pela força brutal (Hartmann, Lasson, Paulsen).

A realidade cuja negação desencadeou a crise universal e processou a desintegração dolo­rosa do mundo, é a realidade Divina. A ordem humana depende em tudo do conceito que ti­vermos da Divindade. E o nosso século é um século do alheamento completo de Deus. Os ci­entificistas orgulho­sos, os evolucionistas materialistas, os positivistas, os burgueses moder­nos, pre­tenderam cortar as amarras que prendiam o homem ao Criador.

Reduziram Deus a um ser ensimesmado, soterrado no abismo do seu empíreo, sem nenhu­ma relação com o mundo, figura decorativa de um museu de coisas inadequadas. Fize­ram Dele o in­cognoscível, espécie de oceano cujas vagas batem às nossas praias e não temos barco para explo­rá-Lo (Littré). Transformaram-No em uma projeção apenas do anseio subjetivo do ho­mem pela perfei­ção e pela beleza, mas inteiramente irreal (Feuerbach, L'essence du Christia­nisme, trad. de Roy, p. 323). Ou então, no mistificador idealista que ministra o narcótico da resigna­ção às massas sofredoras (Lenine).

Relegado para a inércia, ou negado, a ausência de Deus no mundo lançava o germe ter­rível da desintegração social. Sem a presença de Deus, o direito internacional seria apenas a im­posição violenta do mais forte, desde que, desalicerçado do direito natural, dependeria apenas do conceito individualista das nações (Cathrein, Filosofia Morale, Del Diritto Internazionale in ge­nere, 2º Vol., p. 763). Sem a presença de Deus, desapareceria forçosamente o ponto de re­ferência para a Moral, e o bem confundir-se-ia com o útil e o agradável, na concepção edênica dos fi­lósofos materialistas.

O indivíduo reduzido a si mesmo como única finalidade, na concepção burguesa e li­beral, só poderia ter como ideal supremo a sua própria expansão material e econômica. O sa­crifício perderia completamente o seu sentido transcendente. O direito não seria mais um cor­relato necessário do de­ver, porque perdida a idéia de um Juiz Supremo e Remunerador, só ha­veria direi­tos. O justo uso da li­berdade confundir-se-ia com as possibilidades físicas e econô­micas do ho­mem.

Já não se poderiam harmonizar os indivíduos, uns agindo conforme o direito e outros ceden­do conforme o dever, porque só seria possível uma lei: o interesse. E o interesse indivi­dual como fina­lidade suprema jamais foi força harmonizadora, mas eterna gênese de luta. Um notável sociólogo (Gonzague de Reynold, L'Europe Tragique, últimos Capítulos) consubstanciou perfeita­mente esta verdade, quando procurou traçar o substrato da moral burguesa.

O interesse individual seria a única lei do homem, porque negaram a Deus, ou real­mente, ou por uma displicência propositada. Pois há esses negadores práticos de Deus. Vede: que homem de­bruçado sobre o pano verde dos cassinos, ou açulado pelas paixões na vertigem da beleza transfor­mada em ânfora de prazer; ou embriagado pelas noitadas salpicadas de desonras dos jogos moder­nos; ou acossado pelas ambições que guardam montões de moedas de lucro torpe, em­bora saben­do-as manchadas com lágrimas de esposas sofredoras, de filhos esfomea­dos, de suores furtados, de abandonos e desesperos que homem assim pensa sequer que há um Deus e que esse Deus pessoal, onisciente, onipotente, o julgará um dia?

Que mulher de espáduas nuas, rodopiando freneticamente nos ricos salões de bai­les sensualizados; que mulher desvairada, dilaceradora da aliança de sua fidelidade; que mulher merce­nária, que abandona os filhinhos sem carinho, mesmo nos palacetes luxuosos, para malbaratar digni­dade e fortuna nas modernas tabernas domésticas; que mulher, quando su­foca, pelo egoísmo do gozo sensual e pela insaciabilidade do prazer e do bem-estar, a flor do próprio filho que surge na fe­cundidade sacrificada de suas próprias entranhas mãe de morte em vez de mãe de vida que mu­lher assim pensa sequer que há um Deus e que esse Deus conhece toda a vileza de sua vida e descobre nas suas mãos alvas e fidalgas as manchas de sangue que denunciam o mais cruel dos assassinatos?

Negando a Deus abertamente ou negando a Deus burguesmente, na calculada indife­rença dos sibaritas, o mundo necessariamente negaria o homem. E nunca sentimos de manei­ra tão profunda a verdade do Gênesis: 'Façamos o homem à nossa imagem e seme­lhança'(1, 26-27) como nesses momentos terríveis da história em que o homem é nega­do, dilacerado, morto, como uma consequência necessária da própria negação de Deus.

Porque, se anulam a realidade divina, se destroem a Deus, que sentido terá mais a Sua imagem, que valor terá mais a Sua similitude? ...

O mundo moderno que provara até o fim as iguarias do banquete das ilusões procurou todos os caminhos para a paz e o equilíbrio. Procurou o caminho da ciência, da riqueza, do pro­gresso, da técnica. Só se esqueceu do caminho de Deus! E é este o único meio de voltar à casa paterna e en­contrar o coração infinito do Pai: 'Ibo ad Patrem meum'(S. Luc. 15, 18). A nós que não deserta­mos da Casa do Pai, porque se a deixássemos não teríamos para quem ir (S. Jo. 6, 69), a nós compete gritar a esse mundo enlouquecido, indigitando-lhe a direção da paz suprema.

Eis o remédio da crise moderna: voltar para Deus. Não a um deus mitológico, apático, indife­rente (Penido, "O Cardeal Newman", p. 8)! Mas a um Deus, Princípio e Razão de todas as coisas, Cria­dor e Senhor dos Homens e que, por ser o Senhor, tem direito à obediência com­pleta e total de todas as suas criaturas. À volta a um Deus que, por ser Onisciente, conhece to­dos os seus pobres fi­lhos e perscruta todos os seus segredos (Salm. 7, 10). A um Deus que sendo a Eterna Bondade, a Bondade na amplitude infinita (S. Luc. 18, 19), é também a Justiça invulnerá­vel, perfeita, sem acep­ção de pessoas, Juiz das próprias justiças humanas (Rom. 2, 11). À volta a um Deus que recolhe o gemido mais oculto do que sofre, a lágrima mais silencio­sa do homem, a palavra mais humilde do seu servidor (S. Mat. 6, 4.6). À volta a um Deus que é o Supremo Le­gislador, ante o qual somos respon­sáveis não só pelos atos que ferem ao próxi­mo, que desequili­bram a Ordem Moral, que postergam o direito alheio, mas até pelos pensa­mentos desordenados do nosso espírito (S. Mat. 5, 28). A volta ao Deus Vivo, de que falam as criaturas, e em cujas mãos de justiça cair é Suprema Desgraça (Heb. 10, 31). À volta a um Deus que não traz a triste fragilidade das contingências, mas é Eterno, presidindo ao destino dos homens e de todas as coisas (Gên. 21, 33). A um Deus que, na sua infinita Presença, abrange todos os tempos, o pas­sado, o presente e o futuro (Apoc. 1, 18).

À volta ao Único Deus Verdadeiro, pois que todo o resto a que se tem dado o nome de divin­dade não o é, como dizia São Paulo (1 Cor. 8, 4s). A um Deus que é realmente a Verdade, o Cami­nho e a Vida (S. Jo. 1, 4; 14, 6), cuja grandeza é incomensurável e sem fim (Salm. 144, 3). Que não está sujeito às vãs vicissitudes das nossas transmutações (S. Tiag. 1, 17). A volta a um Deus que é fundamento eterno da verdade e não se inclina ao vento falso das mentiras e dos engôdos, um Deus que não nos engana e não nos decepciona (Núm. 23, 19). Não só. Mas a vol­ta a um Deus próximo de nós. Não um Deus longínquo, distante... Porque se uma falsa con­cepção da Divindade ainda o colocar longe do mundo, a crise continuará agoniando e esma­gando os povos, como bem o acentuava Pio XII: 'Que época sofreu mais que a nossa o vácuo espiritual e profunda pobreza de espírito, não obstante todos os progressos da ordem técnica e puramente civil? Não se lhe podem aplicar as palavras penetrantes do Apocalipse: 'Tu dizes, ó mundo: eu sou rico, e vivo na abundância, não preciso de mais nada; tu não sabes que és um desgraçado, um miserável, um pobre, um cego?'(Apoc. 3, 27)'(Carta Encíclica "Summi Pontifi­catus", de 20/10/1939).

Porque só esse sentido de Deus Vivo, presente, impregnando o mundo com sua Gra­ça, im­pedirá a corrupção universal e manterá a continuidade progressiva da perfeição (Gên. 17, 1). À volta a Deus como Senhor de Tudo e Pai de Todos, que está acima de todos, em todas as coi­sas, e em cada um de nós (Ef. 4, 6), imprimirá uma ordenação necessária de valores ao mun­do social. Uma ordenação que não destruirá a liberdade porque ela é dom de Deus, mas não permitirá a anarquia, porque esta é anulação da harmonia social. A volta para Deus anula­rá a moderna idolatria dos Esta­dos e da Sociedade, porque não serão eles fins últimos e su­premos, mas simples meios conducentes Àquele que é realmente o Fim de todas as coisas (Apoc. 1, 8). Maravilhosa filosofia que destrói todas as possibilidades dos rudes totalitarismos e quebra as gri­lhetas de todas as escravidões! Porque só um Deus, perante o qual responde­rão, em juízo seve­ro, todos os príncipes do mundo (Salm. 74, 3), coarctará as arbitrariedades e todos os desman­dos do poder. Só um Deus que faz refulgir na fronte da autoridade a majesta­de de sua própria grandeza, construirá a obediência sem humilhação e sem repugnância (Rom. 13, 1). Só a con­cepção de Sua Presença Real, Viva, Constante, dará aos povos e às sociedades a realização da mais bela harmonia social, da mais ampla compreensão humana e fará a felici­dade das Nações (Salm. 143, 15)..."(Dom Antônio de Almeida Moraes Junior, Arcebispo Metropolita­no de Niterói, Carta Pastoral "A Crise Moderna", de 25 de Dezembro de 1948).   

"A felicidade provém da moderação: aprendamos, pois, de Maria a viver esta vida da al­ma, que não nos deixa ser diligentes senão em amar a Deus, e em cumprir nossos de­veres. Folguemos com a singeleza, que é a roupa da inocência, como os filhos do século se alegram com os vãos ornatos e pompas de Satanás. Ah! E, como esta donzela que se olha, e se alegra com os frívolos enfeites, os trocaria por uma amável singeleza, símbolo de um coração puro, se ela pensasse em Maria; mas, ai dela! Fraca, como caniço, o menor sopro da lisonja a faz vergar, e por um encômio mentiroso sacrifica a primeira de todas as graças, o pudor. De quan­tas faltas tem sido causa este desejo de brilhar! Quantas moças que deveriam ignorar do mal o nome, calcando aos pés a decência e o pudor, compram uma celebridade escandalosa a troco de serem neste mundo infamadas e condenadas ao Inferno no outro...

Nos tempos infelizes em que a Religião e, por conseguinte, os costumes, parecem de­saparecer da terra, devem os fiéis mais que em todos os outros orar com perseverança, e apli­carem-se a bem entender o Evangelho e a Doutrina dos Santos Padres para não vaci­larem na Fé... A Religião é um fato, suas Leis acham-se escritas no Evangelho, seus Pre­ceitos são sa­grados e certos, e o cumprimento deles indispensável. Aquele que quer crer e salvar-se deve estudar esta Lei Imutável dada por Deus, e desconfiar dos sonhos român­ticos religiosos que podem ser ocasião de inovações funestas..."(Madame Tarbé des Sa­blons, ob. cit., pp. 101-102, 319-320, publicado pelo Editor J. P. Aillaud, Paris, 1845).

“Muitas vezes aludimos à crise que envenenou o Ocidente cristão, e que hoje se tornou uni­versal graças ao movimento histórico da ocidentalização que, por paradoxo, se volta contra o Ociden­te. Mais de uma vez tentamos percorrer os marcos históricos e as correntes de idéias que animaram a chamada civilização moderna e que agora desaguam pelo imenso estuário de mil disparates num oceano de sombrias perplexidades. A Renascença e a Reforma, debaixo de seus aspectos progres­sistas, e a par dos reais progressos trazidos pelas ciências da natureza, que asseguram ao homem o conhecimento e domínio das coisas exteriores e interiores, foi o primeiro degrau do itinerário em que o homem se extravia de si mesmo, e para ganhar o mundo hipoteca a própria alma. Depois, na Revo­lução Francesa temos outro marco onde começa a grande impostura moderna das histórias mal con­tadas. Num processo de sucessivo empulhamento que começou nos primórdios da Revolução Fran­cesa, com as famosas societés de pensée denunciadas por Augustin Cauchin, seguiu-se a histó­ria do socialismo, a ascensão do liberalismo, a Revolução Russa, e as duas grandes guerras. Até hoje se conta a história da 2ª Guerra como se a Rússia tivesse desempenhado nela papel decisivo, papel de vencedor. Agora temos a super-impostura do progressismo 'católico', como uma síntese de todos os erros cometidos pela humanidade nestes últimos séculos. E qual é a direção geral, o efeito principal desses movimentos históricos?

Ninguém negará, evidentemente, a ocorrência de um progresso de que se gloria a moderna civilização: o homem inventou o telégrafo, a máquina a vapor, os computadores eletrônicos, o raio la­ser e finalmente chegou à Lua. Mas, dificilmente se contestará outra evidência: o homem se distan­cia do humano, do espiritual, do sagrado. Os imbecis, evidentemente, pensarão que o homem só se rea­proximará do humano na medida em que se afastar do espiritual e do sagrado.

Em nossa reta Doutrina nós sabemos que o homem, de dois modos e em dois níveis, trans­cende ao mundo físico e à história. Por sua natureza racional, o homem possui uma dimensão que ul­trapassa todo o universo; por sua elevação à ordem da Graça e por sua ordenação à glória da visão de Deus três vezes Santo, o homem ultrapassa o próprio nível de sua natural humanidade.

Ora, o movimento histórico a que nos referimos parece ter o objetivo principal de ne­gar e de destruir esses títulos de nobreza que nos vêm da razão e da Graça de Deus.

Nas correntes filosóficas nascidas da mesma raiz nominalista, temos o chamado idealismo que desnatura o conhecimento, deixando o espírito humano encerrado em si mesmo; e o chamado empirismo que só abre para o exterior a janela da experiência, do fenômeno e da medida. Progridem as ciências físicas com essa mutilação; regridem as ciências propriamente humanas, que só podem viver centradas no primado do espiritual, que o empirismo resolutamente desconhece.

Nessa direção será tanto mais avançado, tanto mais evoluído o homem quanto mais materia­lizado se mostrar.

Pervertidas as ciências humanas, por falta de centro e de referência a Deus, pervertem-se as tentativas de convivência política e social.

No mundo de hoje temos os dois volumosos resultados de tal crise: de um lado o liberalismo dissolvente da dignidade humana, por ceticismo, tolerância e capitulação; de outro lado, o totalitaris­mo socialista, que degrada o homem por achatamento e escravização.

Não diríamos que os homens estão sempre em guerra com os homens, como disse o perver­so Hobbes, mas diremos que, a partir da grande apostasia histórica, os homens estão em guerra con­tra o homem. Dispensamos a maiúscula, mas não dispensamos a referência à essência, à natureza do homem. Há na história dos últimos séculos uma visível intenção de rebaixar e degradar o bizarro ser que ousou crer-se a imagem e semelhança de Deus.

A Igreja lutou tenazmente contra as duas correntes corruptoras. Tornou-se hoje um lugar co­mum nas rodas progressistas dizer que a Igreja, antes de sua comunização, nada fez pelo mundo, pela sociedade e pelo homem. Diante do insucesso – critério que bastaria para ridicularizar o Cristo na hora da Cruz –, a primeira idéia que ocorre aos católicos progressistas é a de culpar a Igreja de ineficiência, e não a de arguir o mundo de indocilidade.

O fato bruto é este: a Igreja, sobretudo, no tumultuoso século XIX, não se cansou de apontar os erros do liberalismo, do modernismo e do socialismo. Ora, o liberalismo cobriu a metade do plane­ta, enquanto a outra metade vestiu-se de socialismo; e o progressismo 'católico' está aí. Logo... a Igreja falhou. E se falhou é porque errou; é porque não havia compreendido o mundo.

Agora estamos diante da obra-prima daquelas correntes históricas que trabalharam juntas para achatar a dignidade do homem. Estamos diante da depravação do corpo humano erigida em 'momento histórico'. Cobre o mundo inteiro, nos seus hemisférios antagôni­cos, mas nisto concertados, a maré de pornorréia que pretende amortalhar a última veleida­de de pureza inspirada pela idéia da Encarnação do Verbo, e constantemente iluminada pela figura da Senhora que apareceu às crianças de Portugal e da França no seu manto de Rai­nha e de Imaculada.

A Igreja afrontou todos os ridículos, todas as finesses dos intelectuais que queriam ver no seu zelo germes de neo-maniqueísmo. Lembremos a voz de Pio XI que ainda trovejava contra o impudor. Em 1930, ontem!, o Papa se preocupava com os decotes e com o com­primento das mangas. E como nós todos nos rimos da pruderie do bom velhinho! E como evoluímos desde então! Pio XII, já com melancolia gritava: 'Ó mães cristãs, se soubés­seis o porvir de angústia, de perigos e vergonhas que preparais para vossos fi­lhos e filhas, acostumando-os a viver tão despidos...'. Em vão gritou. Como assinala Luce-Quinette, 'Itineraires' nº 139, outro poder, outra autoridade do mundo dirige os cos­tumes. E quando essa autoridade comandou: 'joelhos!', um bilhão de joelhos se des­cobriram; e quando a autoridade decretou: 'coxas', um bilhão de coxas se mostraram com docilidade, e nas mais variadas circunstâncias. Tudo isto parece pueril, dirão os inte­ligentíssimos progressistas que desaprenderam tudo o que o Cristianismo nos ensinou sobre a alma humana. E atrás dessa docilidade bocó com que todas as mulheres do mundo se afas­taram do seu modelo, do figurino da única 'grande Dame', veio o dilúvio de impurezas, a maré de pornorréia que hoje nos afoga. Em Fátima, a Virgem também trovejou como trovejaram ex-cátedra os Papas. E eis o que Jacinta nos deixou poucos dias antes de morrer: 'Os pecados que atiram no Inferno o maior número de almas são os da impureza. O mundo lançará modas que ofenderão Nosso Senhor...'.

Dirão os evoluídos que Nosso Senhor não irá perder tempo em tais futilidades, acontece que Ele tem uma estima infinita por esse nosso machucado e tão mal servido corpo. Ele levou para o Céu o frêmito de divina alegria que sentiu no seio de Sua Mãe, cumprindo a profecia: ela, a Sabedoria de Deus, se alegrará no meio dos homens.

E nós, herdeiros desse júbilo divino, devemos compreender que a dignidade humana mais depressa começa pelo decoro da veste do que pela conquista da Lua. Não compreende­mos. Rejeitamos as profecias, os sermões de Cristo, os conselhos dos Apóstolos, dos Papas, e deixamos invadir o mundo, a maré de pornorréia, que já começa a inquietar os mais adorme­cidos católicos.

Em vão novamente clama o Papa reinante (Paulo VI) contra o furor do erotismo, contra a se­xolatria. A lepra inundou os costumes, envenenou os espetáculos públicos, ganhou as instituições ofi­ciais, e conquistou lugar de honra nos institutos católicos. Sob o eufemismo de educação sexual, o que se faz é erotização precoce e infinitamente perversa. Degradam-se as mulheres, maculam-se as consciências infantis, e com essas duas pontas de lança da ofensiva dos infernos, não se vê como será possível a reconquista da dignidade do homem. Será sempre possível, com a Graça de Deus, mas tememos muito que somente através de sofrimentos inconcebíveis poderá a humanidade lavar-se em um novo dilúvio. O ponto a que chegamos é sinistro: eles começam pelas crianças. Os novos pedagogos que nas Américas e na Europa querem libertar o sexo do universo moral, começam pela dessensibilização dos inocentes. Esse horror tem valia apologética, por tornar menos repulsiva a idéia de Inferno. Por aí, por um primeiro temor, por uma leve e inicial desconfiança talvez comece a onda da repressão. E nós podemos meditar nestas palavras que não passarão com as modas: 'O que escandalizar, porém, a um destes que crê em Mim, melhor lhe seria que se lhe pendurasse ao pesco­ço a pedra da mó e que o lançassem no fundo do mar (S. Mateus 18, 6)'(Permanência, nº 18, “Editori­al”, pp. 2 - 7, Março de 1970).

Fonte: Acessar o ensaio "Reminiscência sobre a Modéstia no Vestir" no link "Meus Documentos - Lista de Livros".

 

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